sexta-feira, 26 de outubro de 2012

CORAÇÃO PRA QUÊ?




Mara, Maria e Marina não eram mera confusão de letras, tinham parecenças, como toda mulher: sorrisos, dengos, bunda, peitos e coxas; tinham diferenças, como toda mulher: humores, tons e intensidades de voz, de gestos, de gozo. E ele as amava profundamente, cada uma do seu jeito; para cada uma, um coração inteiro.

Acostumara-se a essa situação. Não se tratava de traição. Não se tratava de socialização do sentimento nem de matriz e filiais, como se falava no século passado. Era sincero. Vinha das entranhas aquele sentimento que se manifestava de diferentes formas quando em contato com cada uma delas.

Conhecera as três na mesma época e, desde então, passou a dedicar-se à construção de mecanismos internos que dessem conta da louca aventura em que se transformou sua vida.
Mara, Maria e Marina também não obedeciam a uma evolução de amores e tesões; embora pudesse aparentar, se consideradas as letras dos nomes. Foi acontecendo e ele se rendeu a cada uma delas sinceramente e por inteiro. Sempre fora um romântico e tinha, agora, na maturidade, a oportunidade de vivenciar plenamente o amor.

Era muito aplicado. Obedecia aos rituais de praxe, como o acasalamento, a fase de TPM, as flores e jantares no dia comemorativo do início dos relacionamentos, as frases que cada uma preferia ouvir na hora em que trepavam, os elogios às camisolas e aos cortes de cabelo, coisa tão importante para as mulheres... Programara-se para cuidar de tudo nos mínimos detalhes.

Procurou sempre se aprimorar para não deixar nenhuma das três mais ou menos triste ou insatisfeita que as outras. Chegou mesmo a automatizar comportamentos, tiques, manias e ejaculações. Não podia falhar com seus três amores. Seus três corações davam conta do negócio, mas, com o passar do tempo, o corpo e a mente começaram a lhe deixar na mão.

O pior é que Mara, Maria e Marina, que não tinham conhecimento umas das outras, não eram disciplinadas e mudavam vez em quando. Aliás, vinham mudando bastante nos últimos tempos.
Bicho complicado é mulher: muda uma vez por mês, quando vem a ovulação; muda o cabelo, muda o humor, muda os gostos; quer sempre uma novidade, faz sempre uma nova exigência, olha pros homens na rua e já se interessam; se gostavam do vermelho, agora, querem o azul; se gostavam de mordida na nuca, agora querem beijo na mão... E ele, que já estava completamente formatado para atendê-las, viu-se em maus lençóis ao perceber que era tarde demais para mudar o programa que havia elaborado para si mesmo.

Era tarde demais. Mara, Maria e Marina eram da era de Matrix, viviam holograficamente e ele era um perdido da Guerra nas Estrelas, havia congelado no modelo R2D2, coisa do século anterior, totalmente ultrapassado e sem serventia em tempos atuais. Começava a dar “tilt”.

Chega um tempo em que corações não têm mais serventia.



Texto: Maria Emilia Algebaile
Imagem: Marcelo Damm
Rodada 37

3 comentários:

  1. Caramba, Emília, que presentaço!!! Incrível receber um texto como esse inspirado numa imagem minha! Obrigado!

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  2. Imagina! Seus desenhos sempre são fonte de boa inspiração! rss

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