terça-feira, 30 de outubro de 2012

ÉDEN




Pouca gente comenta, mas houve um tempo em que as portas do paraíso foram reabertas. Pelo menos foi o que garantiu Gerz quando desceu do monte e reuniu todos os outros mestres.
- O Senhor veio a mim e disse: “Avise ao povo que decidi reabrir as portas do Éden”.
Todos receberam a notícia com muita comoção.
- Diante desta mensagem, faço saber que é lei: todo aquele que se portar devidamente durante a vida entrará no Éden reaberto.
- Isto também te foi dito pelo Senhor?
- Não. Mas creio ser o mais lógico.
A partir de então, os mestres entraram num polarizado debate, que tomou inicialmente dois dias apenas para a delimitação da questão a ser posteriormente decidida em Assembleia. Ao final de uma semana agendaram a realização da Assembleia; antes de qualquer decisão da maioria, todas as mortes estavam suspensas. Aqueles que desrespeitassem essa ordem iriam direto para o Inferno, sem possibilidade de recurso.
Ora, estava a Serpente revoltada com a benevolência de se reabrir o paraíso após sua conquista de trancá-lo aos homens. Revestindo-se num corpo de homem – ou melhor, num corpo de velho, com uma respeitosa barba grisalha e roupas surradas de mestre experiente, infiltrou-se no meio dos mestres e pediu para falar na Assembleia.
Havia no povoado um artista, Sam, pintor de grande habilidade que trabalhava para os mestres. Nas horas vagas, valia-se de seus conhecimentos em escultura para construir ídolos, a quem o povo clandestinamente adorava. Sam, portanto, era muito querido de todos, e por esse motivo a cidade se alegrou ao saber que fora chamado para fazer a pintura oficial da Assembleia que decidiria os requisitos formais para se entrar no Éden Reaberto.
No dia da Assembleia, Sam tentou entrar pela porta principal do templo, mas uma multidão impedia qualquer passagem. Assim, entrou pelos fundos e instalou-se num andar mais alto. Armou seu cavalete e posicionou tela e tintas para o início de seus trabalhos.
Os mestres se posicionaram. Gerz iniciou com a defesa de sua tese quanto aos requisitos. Vaiado por alguns, aplaudido por um tímido grupo de viúvas com o qual mantinha contato próximo, Gerz saiu do palanque com uma amarga sensação de derrota. Após, foi a vez do desconhecido mestre Lucius falar sobre a sua opinião.
Antes de abrir a boca, Lucius olhou para Sam.
O pintor inquietou-se em sua banqueta. Sem ninguém por perto e praticamente invisível aos olhos da multidão, começou a pintar de modo frenético, descontrolado. Era como se o pincel fosse o artista e Sam fosse uma gigantesca e imbecil engrenagem necessária para movê-lo.
Lucius disparou uma série de acusações para todos os lados e apresentou sua tentadora tese sobre o paraíso. Os mais jovens se apressaram em aplaudir as encorajadoras palavras daquele sábio desconhecido, que os comparava a deuses e afirmava ser o vilarejo um lugar muito melhor do que uma bucólica escravidão no Éden.
A Assembleia, por maioria esmagadora de votos, decidiu que Gerz deveria agradecer ao Senhor por sua oferta, mas polidamente recusar a vida no Éden.
Sam terminou suas pinturas, guardou os rolos e decidiu sair do vilarejo o mais rápido possível.
Derrotado, Gerz foi ter novamente com o Senhor, que se enfureceu e trancou novamente as portas do paraíso.
O mestre, em desespero, suicidou-se ainda no monte.
Lucius desapareceu alguns dias depois; seu nome continuou sendo cantado por todos os artistas locais como o libertador do povo.  Algumas décadas depois, contudo, novos libertadores o sucederam, e seu nome, bem como seu feito, caíram no mais profundo esquecimento.
Sam não foi mais encontrado. No entanto, em julho de 2012, o pesquisador Levi Koch, da Universidade de Yale, encontrou um quarto subterrâneo que afirma ser de algum artista da Antiguidade. Entre acessórios antigos para pintura e rascunhos diversos, Levi encontrou alguns rolos que não soube identificar. Causou espanto uma imagem em especial: um ser de forma humana, com roupas de mestre religioso, mas de cuja gola saía uma serpente.
No verso do rolo, algo estava escrito numa língua há muito não falada, com uma caligrafia apressada. Segundo Levi, tratava-se de um nome.
O nome era: Lucius.


Texto: Saulo Aride
Imagem: Pacha Urbano

Rodada 37

4 comentários:

  1. Maria Emilia Algebaile30 de outubro de 2012 10:55

    Muito bom o texto, Saulo! O desenho do Pacha me sugeriu várias coisas, mas você abusou! rsss... gostei muito deste post!

    ResponderExcluir
  2. também achei fantástico, ou melhor, fabuloso. saulo é um grande especialista nessas narrativas alegóricas. ele é um alegorista parabólico ou parabolista alegórico, não sei bem. nosso ídolo em comum, walter benjamin, falava sobre a importância da alegoria para a modernidade. precisamos de mais alegorias para os nossos dias, mas só os melancólicos entendem as alegorias. ainda existirão melancólicos no mundo?

    ResponderExcluir
  3. Ser benjaminiano e trabalhar alegorias. Ou então: ser romântico alemão e criar uma mitologia que misture tudo...

    ResponderExcluir