sexta-feira, 19 de outubro de 2012

NOSSA FAMILIA




Nossa Família
Agora estamos aqui. Aprisionados na dupla dimensão. Não deixa de ser aflitivo vivermos enjaulados no papel, meras fotografias expectadoras da vida. Foi isso o que sobrou de nós, mas eu não almejava outra coisa. Antes, nossa vida era assim:
Quando conheci a Carla, me apaixonei de cara, e vivemos a nossa paixãozinha, singular e confusa, por sete meses, não nos largávamos. Depois a Carla mudou. Seu olhar se perdia quando eu falava e, um dia, tive de lançar a pergunta: você está estranha, aconteceu alguma coisa? Ela desatou a falar sem parar, acelerada, agitada e intensa, e o que eu gravei de tudo que ela disse foi que ela conheceu certo Henrique e era com ele que ela queria ficar.
            A Carla foi viver com o Henrique, eu sumi, mas um ano depois ela me procurou, indagando novidades. O que ela queria, a Carla? Eu hesitei, mas não resisti. Na noite de nosso reencontro, dormimos juntos e passei a encontrá-la periodicamente, apesar de sua confissão de que continuava com Henrique. Ela estava em crise, não sabia quem escolher, ela estava testando, um pouco com ele, um pouco comigo, haveria um terceiro? O Henrique não sabia de mim, eu sabia do Henrique, o terceiro saberia de mim e dele? Coloquei-a contra a parede, exigi respostas e, naquele dia, bati nela. Ela me disse que o Henrique havia descoberto, queria um encontro a três. Eu não estava mais me entendendo, porque cedi, eu queria ver quem era aquele sujeito. Na noite de nosso encontro, ele chegou perguntando, Você é o Ezequiel?, e aquele jantar me causou indigestão, ele fazia perguntas atrás de perguntas, aquele cara grande, feio, querendo saber detalhes da minha vida, e não sei, eu não me entendo e não entendo a Carla, mas respondíamos a tudo acuados.
            A Carla continuou a me ver e a ver o Henrique, e um dia chegou machucada de lá também, o cara havia metido a mão nela e não posso negar que era um gozo supremo vê-la como um gato escorraçado quando ela vinha me encontrar com as marcas do ódio dele seladas em sua pele azulada de tão branca. Deixei de bater na Carla, o Henrique já fazia o serviço por mim. Passei a fotografá-la machucada, após a façanha de sobreviver a umas boas porradas. Pedi que ela me fotografasse e que o Henrique mandasse umas fotos dos dias em que ele batia nela. E todos aquiesceram, era um ritual que nos impúnhamos, vexados por estarmos vivendo aquele amor ridículo já por 10 anos. Juntei assim inúmeras fotos: várias luzes retratavam a Carla estropiada, o Henrique enfurecido, e eu mesmo, empedernido. Quando a Carla foi embora, fiz uma composição de nós três, eu, Carla e Henrique, ligados por um ritual corporal que eu mesmo não entendo. Toda noite eu olhava aquela foto antes de dormir, era a nossa família, era naquela imagem que eu me encontrava, era mirando-a, noite após noite, sem dormir, que eu sentia alívio, que eu me reconhecia. Era lá que minha vida morava, dentro daquele retrato. Eu não podia deixar de encará-los, e agora é de lá que espio o mundo e só estou vivo dentro dele. Não sei como vim parar aqui, tem muita coisa que eu não entendo, mas posso sentir a respiração contida do Henrique, o olhar periclitante da Carla, estou sempre à espreita de seus mais leves murmúrios, embora minha boca esteja lacrada.


Texto: Vivian Pizzinga
Imagem: Carlos Monteiro

Rodada 37

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