sexta-feira, 5 de outubro de 2012

VAMOS PEDALAR?

Eu vejo poesia em tudo. Mas há, naturalmente, os dias em que vejo mais. Diferença não faz se há sol ou chuva. Pra mim, existe poesia nos dias de sol, com as pessoas alegres e felizes, algumas seminuas, a suar pelas ruas da Cidade Maravilhosa. O contraste do verde da vegetação com aquele céu azulzinho, por sua beleza, me faz acreditar que Deus existe mesmo. Ah! Mas eu, também, vejo poesia nos dias nublados, cinzas, chuvosos. Eu vejo poesia na dor, nas lágrimas, que são salgadas como o suor. Eu vejo poesia na vida e, como existe de tudo na vida, eu vejo poesia em tudo.
Dia desses, não foi diferente. Resolvi pedalar, no meio do dia, num dia de semana. Peguei a bike e escolhi a trilha sonora daquele dia: Djavan. Já com os fones nos ouvidos, saí andando pela orla. “Eu não sei/Se vem de Deus/Do céu ficar azul/ Ou virá/Dos olhos teus/Essa cor/Que azuleja o dia?”
O início de qualquer atividade física é mais difícil. A gente sente de tudo, por mais que o corpo já esteja acostumado. Passados os dez primeiros minutos, a mente parece parar de tagarelar: “Ai, meu joelho! Ai, minha perna! Que eu estou fazendo aqui com tantas outras coisas mais importantes a fazer?”
Quando ela para, é possível se distrair com outras coisas. Silenciar a mente por completo é tarefa para poucos. Tive brevíssimos instantes desta experiência na vida. Mas, naquele dia de céu nublado e temperatura amena, vi poesia em tudo mesmo. Não parava de me distrair com uma cena ou outra, ao longo do meu passeio. E fui gostando daquela brincadeira! Senti como se estivesse em êxtase, sob o efeito de alguma substância alucinógena. Tudo era mais colorido, mais intenso, mais performático, apesar da ausência do sol e da alegria que costuma aparecer com ele. As imagens saltavam a minha frente. Foi uma viagem incrível!
Logo no início, vi um casal sentado no banco da praia. Ele de terno e gravata. Ela de roupa de ginástica. Conversavam. Ele prestava atenção nela, no que falava. Havia compreensão e amor em seu olhar. Ela não parava de falar e gesticulava e falava e falava. Parecia reclamar de alguma coisa. Será que reclamava dele, da relação deles? Reclamava de alguém? Da vida dela? Fiquei curiosa. Mas segui viagem, pensando em como as mulheres falam e gostam de discutir relação. Depois, me perdi em lembranças das inúmeras vezes em que quis discutir relação, por uma bobagem qualquer. A gente sempre discute por bobagem. O essencial acaba não dito, não falado. Fica subentendido. E a gente quer sempre que o outro entenda e adivinhe. Ufa! Uma chatice!
Logo à frente, vi, em pé no calçadão, uma mulher negra, lindíssima, bem vestida, com os cabelos cacheados, cheios de volume, que ela apertava para dar-lhes ainda mais volume. Quanto mais ela mexia nos cabelos, mais charmosa e interessante ficava aquela mulher. Atenta a sua beleza, só fui me dar conta, instantes depois, de que conversava com um homem, branco, loiro, mais baixo do que ela. Parecia gringo. Reduzi a velocidade da bicicleta pra tentar entender o que conversavam. Coisa feia, né? Pois é. Muitas vezes faço isso. Tenho um interesse profundo pela vida das pessoas. Às vezes, ouço parte de um diálogo apenas e construo mentalmente o desenrolar daquela conversa. Gosto de brincar disso. Fiquei na dúvida se marcavam um programa ou se já tinham um relacionamento. Só sei que tentavam marcar um encontro. O inglês, que falavam, era sofrível e não tinha tanto tempo assim pra ficar tentando entender. Depois pensei: “Será que aquela mulher era puta?” Bom, se fosse, nenhum preconceito. Muito ao contrário! Isto só reforçava antiga crença minha: as putas são muito mais bonitas de dia.
Ainda absorta naquela cena diplomática, vejo um homem, pendurado num andaime, consertando o letreiro do Hotel Marina. Nossa! Uma cena tão comum e vi tanta poesia nisso. Lembrei, imediatamente, da música eternizada pela voz da Mariana Lima: “O Hotel Marina, quando acende, não é por nós dois, nem lembra o nosso amor.” De fato, não é por nós. Ainda bem! Porque se o Hotel Marina precisasse de nós pra acender viveria apagado.
Tentando dispersar os pensamentos da lembrança de alguém que não deve ser lembrado, passei a retribuir os olhares de homens e mulheres, que se exercitam na orla. Não sei se acontece com vocês, mas as pessoas ficam olhando dentro dos nossos olhos quando cruzamos com elas. Resolvi brincar disso e fiquei olhando pra todo mundo, feio, feia, gostoso, gostosa e por aí foi. Estabeleci relacionamento com diversas pessoas, mas tudo bem rapidinho, a ponto de não criar qualquer expectativa. Era só o tempo de cruzar o olhar e passarmos um pelos outros. Pra alguns, eu até sorri. Pra um, em especial, eu sorri ainda mais, quase gargalhei. É que ele entrou na brincadeira, mais do que qualquer dos outros humanos com quem cruzei. Bonito o rapaz. Corpo atlético. Estava de sunga preta e tênis. Já um pouco suado. Devia estar correndo há alguns minutos. Nossos olhares cruzaram, pela primeira vez, com uma certa distância. Eu, embora estivesse brincando, desviei o olhar, pois aquele diabinho, que anos de psicanálise não conseguiram calar, na minha mente, falou: “Isso não é pro teu bico!” Em seguida, lembrei: “Isso é só uma brincadeira!” E voltei a olhar. Ele, o rapaz bonito, que não era pro meu bico, reduziu o passo da corrida. Eu, que de boba não tenho nada, reduzi a pedalada e ficamos nos fitando e sorrindo por bons segundos, que pareceram uma eternidade, tal como uma cena daquelas de cinema em que os casais apaixonados se encontram e correm um para o outro, cheios de amor, paixão e expectativas. Quando passou por mim, ele sorriu e perguntou: “Me dá uma carona?” Eu, prontamente, respondi: “Claro!” Dei um sorriso e cada um seguiu em direções opostas. Pensei: “Quanta poesia!”
Agora, uma coisa ninguém pode negar. Poesia há mesmo é na juventude. Não me considero velha, mas não tenho mais a juventude e a liberdade daquela galera que fica no meio da tarde, de um dia de semana, fumando um baseado no Posto 9. Fumar baseado, pra mim, em qualquer dia ou horário, vem sempre carregado de culpa. É aquela culpa católica, apostólica, romana, entranhada na nossa alma! Fumar baseado num dia de semana, no meio da tarde, então, é quase motivo pra retornar pra terapia correndo, ou melhor, pedalando, tentando me livrar da culpa. É. Essa poesia eu não tenho mais.





Texto: Ericka Gavinho
Imagem: Letícia Hasselmann
Rodada 36 - Invertida

16 comentários:

  1. Que imagem mais sutil e cheia de movimento!
    Adorei Letícia! Bjs...

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Como um cometa cansado de correr bicicleteia o sublime de outras estrelas...

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    1. Nossa poetisou! :-)
      Obrigada, Manika, querida!
      Bjs...

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  4. Sensacional!!!!! Apaixonante. Li com sorriso nos lábios. Linda Imagem! Linda poesia! bj. Raphaela Cotrim.

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  5. Me fez viajar, e ver a orla do Leme ao entardecer bem diante dos meus olhos...Saudades de tudo isso, ate da solidao que senti mts vezes no meu querido Rio.

    Amei esse texto.

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    1. Que bom que você gostou, amiga!
      Um beijo grande,
      Ericka

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Adorei passear pelo seu texto! Obrigada! Bjs

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  8. Adorei Ericka!!! Vamos levar essa carta a um Desembargador, antes de ele ler qualquer dos Memoriais enfadonhos que temos que sustentar - quem sabe eles não fumam um baseado e nos dão uma decisão favorável, achando que se trata de apenas mais uma poesia da vida....ai, ai....vamos pedalando na imaginação....ia ser engraçado!!!! Besos querida, parabéns, adorei mesmo!!!

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  9. Erika, pedalar e viver brincando é o máximo!
    Ainda mais antenada com a poesia...
    Gostei muito de seu texto, que só hoje pude ler.
    Um grande abraço,

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    1. Oi, Ana!
      Obrigada por suas palavras sempre afetuosas!
      Fico feliz que você tenha gostado.
      Pego emprestada uma frase de um amigo meu, escritor: "Eu escrevo pra você gostar."
      Um grande beijo,
      Ericka

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  10. Adoraria responder, de forma mais específica, aos outros três post's, que deixei de comentar acima, mas desconheço os seus autores.
    De qualquer forma, fica o meu agradecimento!
    Bjs...

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