sexta-feira, 9 de novembro de 2012

AQUELE HOMEM



Aquele homem com a barba farta
tinha manias esquisitas,
gestos esquecidos e
falava  obscenidades que ninguém usa mais.
E ele possuía um cheiro animal
que transformava nossa cama em cocheira.
Ali, misturávamos nossos pelos
E nos lambuzávamos muito
E nos machucávamos com tanta fé
Que talvez isso justificasse
 Nossos pesadelos mais horrendos.
Éramos tão infelizes...

Imorais, como todos os casais perfeitos.
Sem limites, como todos que respeitam seus instintos.

Aquele homem me agarrava com força
e me fazia adivinhar seus desejos.
E ele me cantava canções
que há muito não se canta mais.
Ele me arregalava os olhos
e me enchia de beijos indecentes
como não se faz mais.
Ele tinha as mãos grandes ,
o corpo forte e gestos indefiníveis
que me faziam viajar.
Éramos tão infelizes, mas tão infelizes,
Que eu sentia medo de me sentir viva...

Impuros por natureza.
Desgraçadamente livres.

Aquele homem de sobrancelhas espessas e um nariz adunco,
me adivinhava os cios e me dizia poemas.
Ele passava batom em seus lábios,
E me beijava o corpo inteiro,
Deixando marcas de boca de puta
Pelas minhas costas, pela minha bunda, pelo meu ventre.
Depois, deitava-se farto ao meu lado
e ficava me admirando,
me sentindo morrer um pouco também. 
E dormíamos sujos feito crianças,
E levitávamos feito anjos ou feito sei lá o quê. 
Acho que éramos felizes.
Uma felicidade de doer, de morrer e de matar.



Texto: Maria Emilia Algebaile
Imagem: Carlos Monteiro
Rodada 38

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