quinta-feira, 22 de novembro de 2012

B.F.F.




Muito antes do surgimento da expressão ‘Best Friends Forever’, Mila e Josi, amigas de maternal, tinham essa coisa de contar tudo uma pra outra o tempo todo sem parar. Preocupados com a conta de telefone que só crescia, seus pais optaram por inscrevê-las nas mesmas atividades extracurriculares. Assim, fora história, geometria e alemão, as gurias compartilhavam aulas de hipismo, xadrez e ioga. Isso sem contar, naturalmente, com as viagens do grupo de escotismo nos finais de semana.

Aos dezessete, o grude das moças começou a preocupar. Afinal, em tantos cursos e atividades, nenhuma das duas tinha arrumado um namoradinho sequer, nem que fosse pra fazer presença nos bailes de debutante das primas mais novas. Muito pelo contrário. Quando tinham a oportunidade de levar um acompanhante, faziam questão de ir juntas, para dar aquele toque lesbian chic necessário a toda festa de família que se preza.

Long story short, passados uns anos, não dava mais pra negar o que era claro aos olhos. Além do mais, as moças já eram maiores de idade e não havia nada que as pudesse deter. Assim, as mães das meninas, mesmo sem paciência para as constantes piadinhas das amigas do clube, tiveram grande alívio com a saída do armário das filhas. Já os pais das garotas, esses tiveram apenas que evitar fazer sauna na companhia dos amigos reconhecidamente homofóbicos, em especial aqueles que aproveitavam o esfumaçado do ambiente para manjar a rola dos amigos reconhecidamente gays. Nessas horas é que a gente percebe como pros homens as coisas sempre parecem proporcionalmente mais fáceis.

Digressões à parte, tudo tinha meio que se ajeitado quando a menstruação de Josi atrasou. Ela, que sempre combina pulseira com colar, jura de pés juntos que não se esqueceu de tomar a pílula nenhum dia. Pra piorar a situação, estava grávida de um carinha com quem Mila tinha ficado logo após uma briga das duas, quando acampavam, num feriado de Páscoa. Foi mais ou menos assim: expulsa da barraca pela namorada na sexta-feira da paixão, Mila foi atrás de um colchonete para passar a noite e acabou ganhando de bônus um cobertor de orelha. Por um acidente de percurso, Josi flagrou os dois juntos e deu um ataque dos grandes. Desculpas aceitas e castigos aplicados, na Páscoa seguinte, mais precisamente no sábado de aleluia, Josi esbarra com o moço na praia, tomam uns drinques, ela pensa: ‘Se Mila provou, eu posso também’. Numa só tacada, os dois ficam grávidos e apaixonados.

Abandonada e sem chão, Mila precisou encontrar um meio para lidar com o fato de ter sido trocada por um cara. E o que era pior: por um reprodutor. Só dois meses depois da tragédia conseguiu ficar de pé, ligar o foda-se e passar a quinta, certa de que em algum lugar sua alma ia querer parar pra abastecer.

Pois sem tropeço (e mudança de endereço) ninguém faz estrada.

Nem tampouco anuncia novas temporadas.

Imagem: Pacha Urbano
Texto: Poliana Paiva

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