sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Caminhos



Num relance vejo em seus olhos castanhos todas as hipóteses impossíveis de futuro. Tardes com cervejas, lágrimas enlouquecidas, sorrisos silenciosos, lanchonete e ketchup, fome e vontade de comer, aulas de francês e saxofone, letras descoloridas e livros gastos pelo tempo, as urgências de partidas iminentes. Tudo tão simples que se complica por si só. Por um instante, vejo, por cima de seus ombros, as janelas me encarando do outro lado da rua com imagens televisivas que me hipnotizam com violência. Vejo gritos invisíveis. Vejo risos nos quais enraízo sensações melódicas por minha própria conta. Num momento, vejo seu reflexo no vidro e penso nas possibilidades de futuro que inventei. E isso me desespera tanto que não quero prestar atenção em você nunca mais. Penso nisso com tanta intensidade que acho que você consegue perceber. E vejo como todas as minhas forças estão concentradas na vontade de ouvir sua voz. Você sorri. Todos os caminhos levam a Roma, você me diz e eu ouço, cansado das suas divergências, exausto das suas partidas planejadas, das suas voltas inesperadas. Exausto de você e do seu abandono. Ao final, vejo em sua sombra essa única e real possibilidade de futuro.

Imagem: Pilar Domingo
Texto: Danielle Costa

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