terça-feira, 27 de novembro de 2012

DEUS É LAICO





A religião foi a maneira que o homem primitivo encontrou para lidar com suas questões sem solução, um impulso surgido da necessidade de um aspecto transcendente operando por trás da realidade. Em princípio, os deuses assumiam formas ou manifestavam-se através dos aspectos naturais, e todo o paganismo deriva dessa disposição. Adiante, com a sofisticação da escrita em decorrência da criação de códigos sociais — que ampliou a interação entre dois sujeitos que compartilhavam o mesmo sistema lingüístico — aqueles mais letrados passaram a impor sua religião como única, ou mais aceitável, associando o valor do sentimento religioso proporcionalmente ao valor do conhecimento adquirido sobre a natureza. O preço dessa operação foi a morte do mito, ou sua imersão numa região desconhecida.
A substituição do paganismo em grande parte do ocidente por uma religião de credo monoteísta surge para agrupar aqueles aspectos naturais que antes tinham vontade e personalidade própria, formando um todo ultra-consciente que conecta vários aspectos errantes numa mesma unidade conceitual. Assim, você tem a destruição de milhares de deuses em troca do nascimento de um apenas-Ele, responsável desde já pela fundação da realidade, como se outros deuses nunca tivessem existido ou não tivessem importância. Então, a consolidação do monoteísmo no ocidente, à medida que o homem adquire e quantifica conhecimento sobre si, é ela mesma símbolo dessa unificação de aspectos díspares de influência da natureza condensados em um só aspecto que permeia todas as coisas.
Uma só lei. Uma só causa.
Com o advento do cristianismo, um novo e importante dado é acrescentado, e vem transformar pra valer a concepção de divindade:
 Sendo um desdobramento daquela essência Una, Cristo é o Deus feito carne, um homem por todos os homens, o que leva a informação mitológica do herói às alcovas, onde mais se carece de uma intervenção divina; Dalí, a informação se espalha e, com o acréscimo gradativo dos aspectos míticos alimentados pelo boato (ascendência divina, sabedoria incomum, milagres...) temos um mito forte o suficiente para desbancar divindades muito antigas, como o Mitra persa ou o Hórus egípcio. Valendo-se de estratégias humanamente sagazes e simples, o corpo do que seria mais tarde a igreja católica associa aspectos míticos de outras crenças conforme se realiza a expansão da religião cristã, no intuito de criar identificação com as pessoas, que carentes de espelhos transcendentais, voltam-se para o absolutamente novo filho de deus.
Mas com a ascensão crística a humanidade atinge um valor que a própria concepção política da Igreja não pode prever: a ideia de que cada um, em sua individualidade, tem capacidade e competência para realizar-se de forma plena. Simbolicamente, é como se, com a ascensão de Cristo, Deus também tivesse deixado para trás os templos, e postulasse que só vivendo inteiramente a própria individualidade e retirando-se de toda mediocridade de pensamento e ação, será possível alcançar o Céu, ainda que todo erro e ilusão sejam necessários. Uma indicação disso é que no relato do mito da crucificação, Cristo exprime sua perplexidade: “Meu deus, meu deus, por que me abandonaste?”, como um ato tardio de dúvida, que o torna puramente humano. Foi abandonado na cruz, desfeita toda sua ilusão. A resposta transcendente à sua realização é a ascensão em corpo e espírito aos céus, a ressurreição.
Ninguém pode afirmar se de fato Jesus existiu, ou sobre os milagres que realizou, mas por haver um Cristo, um Salvador associado ao sentimento religioso do mundo, um mito tão atuante versando sobre a auto-realização aponta principalmente para o fato de que deus, a mônada, não está preso ao templo ou à filosofia, sequer está preso a algo, quer sejam as concepções mais restritas ou que se julguem libertárias. Pra realizar-se plena e satisfatoriamente, o conceito ultrapassa toda limitação, inclusive os códigos lingüísticos, e se estabelece para além do discurso, muito além, para dentro.
Então toda linguagem revela-se limitada, e na limitação torna-se possível redesenhar o caminho do mundo — ao menos em tese — porque a vida é toda feita do erro e da ilusão, da curiosidade e da loucura, e não há medida exata quando todo esforço é relativo.
Meu deus, meu deus, por que nos abandonaste? Logo o teremos encontrado. 

 Imagem: Ruudy Trindade
Texto: JD Lucas

Estreando no coletivo, JD Lucas é compositor e escritor, autor de José, e da série Novelas Extraordinárias, pela Móbile Editorial. É interessado em mitologia, simbolismo, psicologia analítica, literatura e música. Prefere ignorar os chatos e os pobres de espírito, mas sabe que ele próprio não tem salvação.

2 comentários:

  1. Fantástico texto! Parte da ótima foto do Rudy para quase um tratado sobre a expansão do cristianismo na antiguidade.

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