quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Meus pés me contaram



Algo externo a nós (mesmo que eventualmente determinado por nós) acontece. Como reação, internamente substâncias são liberadas pelo hipotálamo, nossos rostos se contraem, as glândulas lacrimais transbordam. Tudo acompanhado por uma dor essencial que é uma genuína prova da existência. Não sei se o choro é pelo fato de não sabermos lidar com determinadas situações ou se ele é justamente a forma de lidarmos. Por um critério meramente estético prefiro a primeira opção.

O choro também pode ser considerado uma maneira de despertar piedade própria e alheia. “Oh, tadinho, está chorando” e pronto: o mundo fica mais macio. Um canalha que chora é menos canalha do que aquele que ri. Eu choro. Sou um canalha pela metade. Pela meta.

Eu não vi, mas meus pés viram. Quando te fiz a revelação seus pés cruzaram-se. E neles residia seu asco. O resto de você parecia comovido pelo meu choro, que me convertia de um canalha para um homem em sofrido conflito. Mas são os pés as portas da alma. Ali, escondidos, no cantinho, acreditando não estarem à vista, os pés são a mais sinera expressão. São eles que se contorcem mesmo no mais discreto orgasmo. E seus pés tinham se cruzado, a despeito da tímida cumplicidade que você demonstrava. E meus pés me contaram que viram os seus cruzados. Tentei me resignar. Até agora não consegui e confesso que não sei como fazê-lo. Examinarei meus pés atentamente nos próximos dias. Quem sabe eles não me dão uma resposta?

Imagem: Magali Rios.
Texto, inspirado na imagem: Renato Amado.

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