quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O DIA EM QUE EU NÃO QUIS MAIS SABER DOS ZULUS E PASSEI PARA O LADO DOS INGLESES





- Bom, filho, agora vamos dormir.
- Ah, não, de novo!
- Filho, já contei  três vezes...
- De novo!
                O dedicado pai não aguentava mais contar a história do bravo povo africano que resistiu durante anos aos colonizadores europeus. Era uma mistura de fatos históricos relativos à derrota dos ingleses pelos zulus, no final do século dezenove, com elementos vindos de filmes, livros e outras referências que nada tinham a ver com o episódio. Além disso, sempre mudava detalhes a cada noite, por simples esquecimento ou a fim de exercitar sua criatividade. Entretanto, tomou  consciência de que tinha cansado de vez. Simplesmente não aguentava mais.  Uma conta veio então à sua mente (afinal, era contador, não só de histórias). O filho tinha cinco anos e dois meses.  Essa história vinha sendo contada, no mínimo, há um ano.  Considerou que contou várias histórias por noite, quase todas as noites neste período, e  que a dos guerreiros africanos dominava o cenário. Suplantava até mesmo outro grande sucesso, que narra uma animada festa na geladeira com a participação de diversos tubérculos e hortaliças. “Meu Deus, foram trezentas, quatrocentas vezes?” – questionou-se, assustado e com uma ponta de indignação.  Rapidamente, essa indignação se transforma em revolta.  Naquela noite, como o povo zulu, resolveu se libertar.
- Filho, tenho que te falar uma coisa...
- O que é, pai?
- Tem uma outra história dos zulus que eu pensei em te contar, mas aí achei que não seria legal...
- Ah, pai, por quê?
- Não sei se você vai gostar dessa outra história, sabe? – diz, com um certo sentimento de culpa pela estratégia maquiavélica.
- Ah, pai, conta, vai! Conta o que é!
- Bom, o negócio é o seguinte...  – fala, enquanto pensa como começar o enredo insólito.  - Cetshwayo, o rei dos zulus, precisava manter seu povo unido e sempre pronto pra batalha.  Só assim poderia resistir aos invasores.  Então, enquanto seus guerreiros se preparavam fazendo exercícios, treinando sob seu comando, ele pediu ao maior feiticeiro da grande tribo pra ajudar a preparar os meninos novos pro exército. Ele era irmão do rei e se chamava Cotchawe, e passou então a ser o grande terror dos meninos zulus...
- Por quê? – pergunta o filho, assustado.
- Bom, em primeiro lugar, ele passou a obrigar todos os meninos a acordarem bem cedo, às cinco e meia da manhã.
- Hum, que ruim.
- E aí eles tinham que tomar banho frio no rio, um de manhã e outro de noite...
- Banho de rio deve ser legal.
- Mas era bem gelado, e bem cedo. Depois, os meninos faziam ginástica e almoçavam. Só podiam comer legumes e verduras pra ficarem fortes - beterraba, brócolis, couve-flor...
- Argh, que horrível!  E a janta?
- Comiam a mesma coisa.
- Mas eles tinham geladeira pra ter festa de noite com a Dona Batata e o Seu Repolho?
- Sem geladeira. Sem festa.
- Ih, pai, não tô gostando muito dessa história...
- Pois é.  E você não sabe o que mais acontecia.
- O que, o quê?
- Ele botava todo mundo pra dormir cedo de noite, sem histórias.
- Nenhuma história?
- Nem umazinha.
- E depois?
- Depois o quê?
- Que ele botava os meninos pra dormir, eles dormiam mesmo?
- Claro, todos eles morriam de medo do feiticeiro. Além disso, ele ia conferir pessoalmente, de casa em casa, se os garotos zulus tinham escovado o dente. Quem tivesse de boca suja, ele passava uma escova gigante na hora. A mesma que usava pra limpar os dentes dos jacarés.
- Hum, que nojo! Pai, pra que eles escovavam os dentes dos jacarés?
- Ora, filho, ora... pros jacarés não ficarem com cáries!
- Ah, tá. E depois? Conta mais, vai, conta.
- Esqueci de dizer, o feiticeiro levava os jacarés com ele, quando conferia a boca dos meninos. Eram jacarés bastante ferozes.
- Que legal, pai, queria ver um jacaré de perto. E depois?
                O homem não estava gostando do rumo da história.
- Bom, e depois, os meninos ficavam apavorados. É isso, entendeu?
- Entendi, pai, bem legal. O jacaré era muito grande? Como ele era? Ah, conta de novo.
- ...
- Conta, pai, vai.
- Não.
- O quê?
- Não vou contar mais!
- Por que, pai?
- Por que... Por que...
- Por quê? Fala, pai, por quê? Eu gostei dessa história.
- Ah, filho, desculpa. Mas não quero mais contar histórias dos zulus. Na verdade, tenho que ter contar uma coisa... Eu tive um antepassado inglês.
- Ante o quê?
- Bom, sabe, o avô do meu avô. Ele era inglês. E morreu numa batalha contra os zulus.
- Ué, você nunca falou.
- Esqueci de te dizer. Nunca deveria ter começado essas histórias. Foi um erro.
- Ah, pai, pensei que a gente tava do lado dos índios. E agora? Eu não quero mudar de lado por causa do vô do seu vô.
- Não precisa mudar de lado, é só a gente não falar mais disso. Eu fico triste, lembro do velho. A partir de hoje, estão proibidas histórias de guerra de zulus e ingleses, tá bom? Vamos dormir, então.
- Tá bom, pai. Posso só perguntar uma coisa?
- O que é?
- Quantos anos tinha o vô do seu vô, era muito velho? Como é que ele era? Conta, pai, conta.

Texto: André Calazans
Imagem: Marcelo Damm
Rodada 38

Um comentário: