segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Zugzwang




    Quase sempre a luz da manhã invade as aberturas tortas das persianas e a faz acordar da noite mal dormida antes que o som do despertador seja ouvido. Abre os olhos, consciente de que estava sonhando, enquanto percebe que seu corpo não descansou das rotinas enfadonhas do dia anterior. Não relaxa. Nunca descansa. O rosto enfrenta as notícias diárias e a cabeça ainda sonha com igrejas, soldados e pessoas invadindo casas. Sempre evitou cortinas nas janelas. Preferia as persianas tortas, obstáculos frágeis e devassáveis de outras vidas. Por que gostava tanto de ser testemunha das rotinas alheias, emolduradas nas janelas dos apartamentos da frente, das crianças desconhecidas chorando por não compreenderem o que estão fazendo, das mulheres imersas na contraluz lendo romances de qualidade duvidosa, dos casais discutindo por causa da falta ou do excesso de amor? Nos tempos atuais, a intimidade derrota qualquer jura explícita que se finge eterna. Melhor apenas jurar pra si mesma, aí sim, com a convicção que falta nas promessas impensadas. Acordou com a sensação de fuga do sonho invasivo e primeiro pensou em voltar a dormir e solucionar, no inconsciente, todos os temores que lhe afligiam. Depois decidiu levantar-se, levantar-se e mover-se e derrotar seus medos um a um, num movimento lento e estratégico, como quem quer chegar ao fim com uma sensação peculiar, inédita. Durante o dia listou todos aqueles medos, todos os dissabores, todas as mágoas, todas as frases não ditas. Daí, caiu e chorou. Não conseguia ir pra frente. Não se pode ganhar sempre, pensou em voltar para os sonhos inacabados, com igrejas, soldados e pessoas invadindo casas. Mas decidiu levantar-se, e de novo, fazer um movimento planejado. Mentiu pra si mesma, passou maquiagem no rosto e manteve um sorriso arraigado, mas fingido. Até quando vão pensar que está tudo bem? Até quando pensarão que ela é forte? Depois de outro movimento e outro movimento, parou e novamente pensou em igrejas e em vizinhos vivendo vidas alheias. Desejou perder voluntariamente, suicidar-se com derrotas consecutivas. No entanto, era obrigada a, bem devagar, movimentar-se para seu fim. Voltou pra casa naquele dia com uma vertigem propulsora. Enquanto o chão fugia de seus pés, estava sozinha de novo. Ninguém suportaria tamanha areia movediça. No meio disso tudo, se via protegendo alguém fraco, inapto pra enfrentar qualquer pequena covardia do cotidiano. Como desenvolver a força se via apenas um penhasco na sua frente? Nesse intervalo, fez dois movimentos bruscos. Deu um telefonema e fez as malas. No dia seguinte, partiria, fugiria de seus medos como quem foge dos sonhos, ignorando que eles a seguem. Indefinidamente a seguem. E para sempre a seguem. (Não pensou que às vezes simplesmente a solução é parar e ficar em silêncio.)
Imagem: Letícia Hasselman
Texto: Danielle Costa


2 comentários:

  1. Que linda a imagem da Leticia, linda e difícil, mas a Dani não ficou atrás e o post ficou essa coisa às vezes indefinível, às vezes indefinida, que se pode chamar arte.

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