terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A melhor hora do dia





Do alto, Humberto tinha uma visão privilegiada de tudo o que acontecia, mas sua cabeça estava em Lúcia, que acordara alterada, deixando-o intrigado. Saiu de casa pensando nela, torcendo para que ouvisse suas recomendações apesar de saber que quando Lúcia estava daquele jeito não escutava nada, nem a si mesma, e ele agora nem reparava nos banhistas, nas cocotas, nas velhinhas, nos surfistas, Humberto pensava era em Lúcia, medo de ela sair gastando um dinheirão como da última vez, cinco pares de sapatos, três vestidos caríssimos, presentes pra família inteira, deixando uma dívida que ele, Humberto, teve de correr para resolver, medo de tudo se repetir enquanto aquelas pessoas nem se davam conta do incômodo que corroía sua paz.
Tenório, esparramado na areia e na extensão da sombra do guarda-sol, não se dava conta do incômodo de Humberto, porque Tenório era inteiro o primeiro dia de férias, ele era só presente, todos os seus pensamentos, quando não mergulhavam no colorido das imagens oníricas, procuravam desvendar os sons da praia que vinham dispersos pelo vento, ele era pura felicidade se entregando às sensações do momento, fato raro em sua vida diária. Terezinha, sua mulher, levantava-se para esticar as pernas e buscar um refrigerante no quiosque, ela que era inquieta mas não agitada, ela que não sabia de Lúcia, estava satisfeitíssima com a generosidade do marido alegre no primeiro dia de férias, e também não se dava conta do incômodo de Humberto. Terezinha voltava já, era o que anunciava a Tenório.
Tudo acontecia ao redor de Humberto, que não se dava conta de nada: o jovem Márcio, que descansava entre um mergulho e outro, o Lucas, conferindo as unhas, a Lídia, que esperava a mensagem de celular do Tasso, e a Odete, que há anos não vinha à praia, junto com a Mila, que sempre vinha, nenhum deles, tampouco, sabiam de Lúcia nem do incômodo que ulcerava a paz de Humberto. Quanto a ele, só pensava em Lúcia, perguntando-se, sem resposta possível, se ela andava tomando os remédios conforme as orientações do doutor Patrício. Era hora de marcar uma nova consulta, foi a conclusão de Humberto, que, emoldurado pelo movimento da praia, não via cocotas, velhinhas, banhistas, surfistas, só pensava na hora de voltar pra casa, que era a melhor hora do dia.

Imagem: Letícia Hasselmann
Texto: Vivian Pizzinga
Rodada 38

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