terça-feira, 18 de dezembro de 2012

OBJETO DIRETO



Isabela, quando acordava, dizia a si mesma: ‘ainda penso, não parei de pensar’, e isso ela dizia (seus cabelos emaranhados) olhando o chão em vez de mirar o teto. Nesse momento, o chão se confundia com o teto, mas Isabela sabia bem que não havia teto, nem paredes, nem chão. Não havia casa, mas, na hipótese de haver, o porão invadia o sótão, os quartos viravam mosaicos inconsequentes, Isabela não se sentia mais dona do que antes julgava conter. Tudo ao seu redor perdia nitidez, apesar de ela continuar fitando o mundo sem piscar. As lembranças - dela e de outrem - esmagavam qualquer autoria. Não sabia mais se ela havia feito o que havia feito ou se havia desfeito o que sequer imaginara. Confundia-se cada vez mais e, na tentativa de se certificar sabe-se lá do quê, apalpava seus pulsos, seu rosto, sua respiração. Apenas encontrava a espessura do desânimo. E voltava a constatar que continuava pensando.
Deitava-se, então, com olhos úmidos, mas já no meio da noite, quando um susto a empurrava para a vigília sem escolha, Isabela os sentia secos, seus olhos úmidos. A língua colava no céu da boca e dezenas de giletes arranhavam sua garganta num coletivo brutal. A partir daí, Isabela já não conseguia abrir os olhos, nem movê-los, menos ainda despistá-los das imagens ali cunhadas. As legendas das imagens também dela se acercavam, Isabela perdia o prumo e não tinha onde apoiar as mãos. O dia seguinte era construído em meio a um cansaço que se arrastava desde aquela vigília forçada até a nova hora de dormir. Nesse intervalo, ela mais uma vez reiterava a si mesma: ainda penso e é isso o que acontece todo dia. Isabela (seus cabelos alinhados) pensava sempre na mesma coisa, por que não fui embora?, por que continuo aqui?, por que permaneço?, e rodava razões e argumentos, revivendo as falas que poderia ter dito, os gestos que poderia ter evitado, dito a quem?, calado o quê?, Isabela cismava, obcecava-se, não se perdoava, e seus olhos ardiam, pingavam, desfaziam-se, e ainda Isabela pensava, martirizada (seus cabelos desalojados), esperando que se tornasse rarefeito o objeto direto do pensamento.


Texto: Vivian Pizzinga
Imagem: Pacha Urbano

Rodada39 - Invertida

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