quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

De como Clara conheceu o inescrutável mundo dos ratos


Foi em uma tarde chuvosa que Clara descobriu o buraco na parede do quarto. Seu olhar estava perdido entre a cama e o videogame, segurando com a mão esquerda a caneta sobre o caderno, e confrontando, num tempo que parecia uma eternidade, o livro de ciências à sua frente. Precisava fazer uma redação que contivesse as palavras camundongo, lembranças, tufão e inescrutável. Mas que diabos significaria 'inescrutável'? Abriu o dicionário online onde leu: o que não pode ser indagado, impenetrável, incompreensível. Levou a caneta à boca, pensativamente, e escreveu em seu caderno:

Eis a minha lembrança do dia em que entrei num buraco de ratos. Como Alice no país das maravilhas, encolhi de tamanho e entrei. Só que cheguei no país inescrutável dos camundongos. Fiz amizade com um rato chamado Damião, que me mostrou sua coleção de queijos. Tinha queijo de tudo quanto era tipo: suíço, cheddar, prato, minas, bola, gouda, gorgonzola, mussarela, parmesão, e, inclusive, alguns que jamais tinha ouvido falar, como, bleu vercors, asiago e crottin de chavignol. Um dia comi um desses queijos porque estava muito curiosa e o camundongo Damião brigou comigo dizendo: “meu mundo é inescrutável, como ousa, humana, comer meus queijos?” Ele ficou tão furioso que me expulsou do seu mundo a pontapés e depois disso nunca mais o vi. Não consegui entender sua reação, mas como o mundo dele é inescrutável, não me preocupei muito com isso. FIM

E depois se lembrou do tufão. E o tufão?, pensou. Como iria colocar o tufão nessa história? Pensou mais um pouco, riscou o FIM e escreveu:

Sinto saudade de Damião, mas acho que, de tanta raiva, ele se transformou num tufão. FIM MESMO.

Pronto. Fechou o caderno não muito satisfeita com o resultado da redação e tentou se decidir entre um cochilo e um joguinho. Foi nesse exato instante que notou o buraco na parede e, saindo dele, uma cabeça cinzenta olhando à sua volta. Gelou. Sentiu que sua pressão havia caído instantaneamente (aprendeu sobre pressão arterial na aula de ciências e achou que serviria para alguma coisa). Colocou os pés sobre a cadeira, num movimento tão rápido quanto a a velocidade da luz, tentou gritar mas a voz não saía. Arregalou os olhos e tentou dizer algo, quando viu o bicho sair, levantar-se sobre as patas traseiras, colocar as patas dianteiras na cintura e examinar cuidadosamente o quarto da menina. Em poucos instantes, também ele se deu conta da presença de Clara.
Ah, é você? Excelente, é com você que preciso falar”, o rato disse com uma voz estridente.
Clara ficou muda e o rato andou com passos velozes e pequenos até a escrivaninha do quarto e a escalou, ágil e firme, como um chimpanzé. Clara foi se apertando na cadeira, olhando aquela correria toda, meio apavorada, meio intrigada e meio achando que havia enlouquecido.
Clara, veja bem, serei breve...”
Você fala?”, Clara gaguejou. “Você sabe meu nome?”, concluiu sem piscar, os olhos quase pulando de suas órbitas.
Claro que sei seu nome. Como posso não saber o nome da pessoa com quem divido o quarto?”
Clara ficou vermelha: “Eu não divido meu quarto com você. Nem com ninguém! Meu quarto é só meu!”
O rato deu uma gargalhada. Clara arregalou ainda mais os olhos. Depois o rato ficou sério novamente e disse:
Clara, eu estou aqui para fazer um pedido a você.”, A menina continuou olhando fixamente. “É algo muito importante. Espero que você entenda.”
Tá, pode pedir, vamos ver se posso ajudar você.”
Eu preciso que você diminua o volume do seu videogame. Eu não consigo dormir... e principalmente nos finais de semana. Trabalho a semana inteira, quando quero descansar, só escuto esses sons impossíveis desses jogos intermináveis. Eu faço o que você quiser, mas, ao menos, vamos combinar esses horários.”
Você trabalha a semana inteira?”
Sim, qual é o assombro?”
E qual seria seu trabalho?”
Sou fornecedor de queijos, ora.”
Ah, sim, claro, que óbvio!”, exclamou.
Não fuja do assunto, Clara, por favor, eu faço o que você quiser”.
Oquéi, eu preciso pensar, é..., qual o seu nome?”
Damião”, o rato disse com sua voz estridente.
Clara não se conteve e exclamou:
Damião é o nome do rato da minha redação! Como pode?”
Ah, Clara, sei lá, vai ver, no seu inconsciente, você sempre soube da minha existência. Afinal de contas, convivemos juntos há anos. Cadê essa redação? Deixa eu ler.”
Damião sentou-se sobre o caderno de Clara e passou a ler a redação escolar da menina.
Não me diga que você sabe ler também.”, Clara já não mais se surpreendia com coisa alguma.
Damião balançava a cabeça de um lado para o outro acompanhando as letras e as palavras escritas na caligrafia infantil de Clara. Ao final, inspirou profundamente o ar, olhou fixamente para Clara e disse:
Que história é essa de me transformar num tufão?”
Clara tentou ponderar que isso era o menos estranho de tudo, considerando um rato que fala, ri, trabalha, divide o quarto com ela, se incomoda com o barulho e ainda sabe ler.
Sim, mas essa redação está meio preguiçosa”, criticou o bichinho cinzento.
Tive uma ideia”, gritou Clara, quase ofegante. “Quero conhecer seu mundo, Damião.”
Levo você até meu mundo, se você prometer melhorar essa sua redação. Me transformar num tufão foi demais, Clara.”
Não complica, Damião! Já vou diminuir o som do videogame. Não está satisfeito?”
Damião pensou, pensou, levou a pata dianteira até o focinho e, por fim, aceitou o trato.
Tudo bem, então, siga-me.”
Colocou Clara em frente ao buraco na parede, tomou certa distância e soprou um sopro forte, inexplicavelmente intenso, quase furioso, que fez a menina girar e girar e girar e ir diminuindo de tamanho, até ficar muito pequenina.
Clara ficou tonta, atordoada e caiu no chão.
Quando levantou, viu Damião imenso, ao seu lado, dizendo:
Está tudo bem?”
Ela assentiu e, meio assombrada, meio intrigada, meio achando que havia enlouquecido, entrou no buraco, pensando em como a realidade é tão estranha quanto a fantasia.



Texto: Danielle Schlossarek
Imagem: Maria Matina
Rodada 39 (invertida)

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