sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Recorte



Mas que barriguinha! Sequinha, quadril fino, o umbigo tímido e charmoso. Ela subia e descia suavemente, distorcendo ligeiramente o reflexo do sol. Estava estirada sobre uma canga, relaxada. Sentei-me ao seu lado e ofereci um gole de cerveja. Ela não respondeu. Perguntei se poderia entender que quem cala consente. Diante de novo silêncio não tive dúvida de que a resposta era positiva. Derramei um pouquinho sobre o umbigo e o álcool produziu efeito imediato. Logo ela estava na vertical, a um metro da areia, apoiada sobre um par de pernas. Arfava. Com a gata já calibrada tudo seria mais fácil. Perguntei seu nome, mas não consegui ouvir a resposta, pois a cabeça, mais acima, soltava incessantes gritos estridentes nos quais eu não prestava a menor atenção. Repeti a pergunta numa breve pausa da histeria e ouvi “Jéssica”. A voz irritada pareceu ter vindo um tantinho acima da barriga, mas devia ser só impressão. “Jéssica, devo te confessar com certo acabrunhamento que é a primeira vez que converso como uma barriga. Você faz o quê? Todas as barrigas fazem a mesma coisa?”. Novos ruídos vieram novamente de um ponto um pouco acima de Jéssica, que virou as costas para mim. Mas aquelas costas, cujo nome nem sabia, não eram charmosas. Corri para ficar frente a frente com Jéssica.
- Olha, desculpe se sou meio sem jeito, afinal, como disse, você é a primeira barriga que abordo. Leve isso em consideração. Estou aprendendo seus gostos, seus hábitos...
- Por favor, não me ignore, fale alguma coisa. Ah, já sei, para escutar vocês barrigas falarem temos que encostar o ouvido, não é isso?
Segurei nas desinteressantes costas e colei meus ouvidos em Jéssica, na altura do estômago. Antes de ouvir qualquer coisa senti seu calor e seu balanço. Ela ainda estava um pouco molhada da cerveja. Era como se copulássemos. Mas mãos intrometidas vieram me afastar de minha musa. Esbravejei com as mãos que elas eram empata, que certamente eram umas lisas para adotar esse tipo de atitude, que o faziam por inveja de Jéssica, que certamente atraía muito mais o interesse masculino do que elas. Sem me darem qualquer resposta dirigiram-se ferozmente e fechadas ao meu rosto. Pego de surpresa tombei, mas rapidamente levantei-me e fui ao ataque. Tentei acertar socos naquelas mãos, mas elas eram velozes, se desviavam e atingiam o meu rosto. Então decidi imobilizá-las e chamar a polícia. Logo chegou um guarda, que me segurou:
- Ei, ei, eu sou a vítima aqui!
- Deixa de ser engraçadinho, que vimos você agarrando a moça.
- Não agarrei nenhuma moça, apenas conversava com aquela barriga quando essas mãos, que não tinham nada a ver com a história, resolveram me agredir. Pergunte à barriga se não é verdade.
Os guardas riram, talvez porque acharem que eu era mais um agressor que tentava transferir a responsabilidade para a vítima. Ledo equívoco. Provaria minha inocência na justiça. De fato, não me mandaram para a cadeia, mas para algo pior. Agora vivo cercado por malucos e homens de jaleco.

Imagem: Fernanda Lefreve
Texto: Renato Amado


2 comentários:

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