quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Rede




O e-mail era entusiasta, me chamando de escolhido, e eu gosto de me sentir escolhido, então cliquei no sim, e aí vi fotos de vários amigos meus, coisa boa ver os amigos, e nem li o contrato, aceitei na mesma hora.
Na outra semana chegou o kit. Um eletrodo pequeno, USB 3.0, rápido, do jeito que eu gosto, e uma carta com meu nome, o meu nome mesmo, prenome e sobrenome, eu, inconfundivelmente eu, e um agradecimento por ter aceitado. Eu gosto de me sentir importante, de me sentir eu, mas eu pros outros, eu pra empresa, então fiquei feliz. O manual dizia assim:
“O eletrodo deve ser colado aproximadamente cinco centímetros acima do olho esquerdo, dez minutos antes de dormir. Ao acordar, aguarde cinco minutos antes de desconectar o aparelho.”
O manual nem dizia, mas a outra ponta do eletrodo, o USB 3.0, deveria ficar a noite inteira ligada num adaptador para tomada três pinos, mas isso era óbvio, que tipo de aparelho não tem que ficar a noite inteira preso na tomada pra funcionar? Eles não nos achavam burros, então nem escreviam esse tipo de informação idiota no manual.
Na primeira noite entrei na rede. Era uma rede social de sonhos, todos ali, sonhando sozinhos, cada um num canto de uma página infinita, volátil, um pouco úmida para os meus pés, até, o que me levou a dormir de chinelos a partir do segundo dia. Os sonhos eram individuais e permitiam uma infinidade de configurações de privacidade. Eu conseguia ver os sonhos dos outros e os outros conseguiam ver o meu, mas ninguém participava do sonho de ninguém. Só olhando. Mas olhar não é participar.
Não necessariamente.
E aí, ao acordar, as coisas mais bacanas aconteciam, coisa de filme mesmo, que eu nunca imaginei que pudessem ser reais. No primeiro dia mesmo eu sonhei que acordava às 8:12 e muito tempo depois eu abri os olhos e eram exatamente 8:12, coisa desse tipo. Um dia sonhei que estava andando a cavalo e quando acordei tinha um e-mail na caixa oferecendo passeios a cavalo num preço muito bom, exclusivo pra mim, o que é legal porque é exclusivo, foi pensado especificamente pra mim, pro meu nome, prenome e sobrenome. Não sei os outros, até porque só via seus sonhos, mas eu era feliz ali.
Eu me sentia em família.
Um mês depois de ter começado a usar ela apareceu. Na verdade, eu já tinha visto alguém sonhar com ela, ou com uma mulher muito parecida, mas até aí nada de novo, até o dia em que ela apareceu no meu sonho. Ela tinha os cabelos esvoaçantes, que apareciam e desapareciam como nuvens, e os olhos azuis, e o jeito sensual e materno ao mesmo tempo, como devem ser as mulheres, pelo menos as mulheres dos sonhos. Ela girava em torno de mim e nada mais acontecia, era um sonho simples até, comparado aos sonhos com o cavalo, mas era o melhor sonho, e quando ela não aparecia eu acordava irritado. Um dia, um dos outros membros apareceu aos berros, dizendo que eles tinham infiltrado ela na rede. Rapidamente ela apareceu no sonho dele e o deixou mais calmo, mas aí fomos nós, os outros, que ficamos nervosos, porque queríamos todos sonhar com ela, e ela estava acalmando um cara ofensivo, que não merecia atenção dela nem de ninguém. No final do sonho, ela tocou no seu rosto e ele desapareceu, se esvaiu mesmo, misturado com os cabelos dela, e isso não era um sonho comum. Quando alguém acordava, o máximo que acontecia era seu avatar ficar vermelho e dormindo, como se a vida real fosse o sonho do avatar.
Mas ele desapareceu.
E no dia seguinte não havia traço dele na rede. Uma mulher sonhou com um acidente de carro com ele, foi horrível, “ele deve ter dormido no volante”. Mas quem coloca o eletrodo dirigindo? Isso até eu achei estúpido, e olha que a essa altura eu já ligava o eletrodo na cabeça quatro vezes ao dia, tinha largado o emprego, que já não me dava nada que prestasse, só dinheiro, e a rede é de graça, e eu nem sinto fome nem sede, e durmo nu, nu mesmo, sem uma peça de roupa, então não tinha necessidade de dinheiro. Às vezes recebia uma promoção ligada aos sonhos, mas pra isso eu gastava minhas economias, eram promoções imperdíveis, exclusivas.
Um dia as economias acabaram e ela parou de aparecer. Eu ficava desesperado na rede, olhando para todos os lados, e tudo o que via era um vazio azulado, como uma tela de bug, e eu nela, eu no bug, sem conseguir acordar. Eu passava o dia inteiro com o eletrodo e nada, nada dela, e eu comecei a reclamar da rede, a reclamar deles, “isso aqui tá um saco”, “bom era quando começou”. E muita gente ouviu, muita gente virou a cabeça dos seus sonhos e me viu resmungando, como eu vi o cara reclamando deles, e aí me senti mais exclusivo ainda, o centro das atenções. Até que eu gritei que ia sair da rede.
Então ela apareceu e tocou no meu rosto.

Imagem: Maria Matina
Texto: Saulo Aride

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