domingo, 27 de janeiro de 2013

Verônica, que sempre torceu escondido para o Coritiba



O homem da bicicleta não tem uma história. Ele, que ocupa quase metade da fotografia, também não tem nada a dizer. Nunca se ouviu falar dele com mulher, não se sabe se tem filhos. O homem da bicicleta decidiu pedalar na praia na aurora de quinta-feira. Não se sabe se ele virou a noite, se dormiu um pouco ou se acabara de acordar. Também não se sabe se ele é da Zona Norte ou da Zona Sul ou se está pela cidade em algum albergue. Por algum motivo, o homem da bicicleta para. Talvez para admirar a vista ou apenas para beber água (mas nunca saberemos).
Na imagem, à direita, podemos ver um homem cujas feições mal se distinguem, com água pelos quadris. Este homem é Pedro, 34 anos, pescador, filho de José e de Sandra. Tem duas filhas: Ágata e Paloma. Torce pelo Flamengo. Foi ao jogo do Maracanã ontem, quarta-feira, empate com o Coritiba. É casado com a Verônica, mas gosta mesmo da Denise, que trabalha num quiosque de coco ali por perto e tem um filho de três anos chamado Totonho. Gosta de jogar xadrez e se arrepende de não ter feito faculdade. É um homem feliz, na medida do possível.
De Pedro, que mal enxergamos, a única coisa que não sabemos é se ele é o pai do Totonho.
Do homem da bicicleta, que mal sabemos, a única coisa que enxergamos é que ele precisa emagrecer um pouco.
E a gaivota, despreocupada de saber e de enxergar enquanto singra os céus dourados, se questiona: “Quem, então, é coadjuvante nessa vida?”

Imagem: Rudy Trindade

Texto: Igor Dias

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