segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Eu não queria camarão


é que não gosto. Não, não sou judeu nem tenho alergia, simplesmente não gosto mesmo. Sei que é estranho, mas se tem gente que não gosta até de chocolate, qual o problema em não gostar de camarão?
Mas quando você me ofereceu não hesitei em aceitar. Quando disse sim, quero uma garfada, minha única questão era se eu teria que pegar o garfo e dirigi-lo à minha boca ou se você o faria. É que no ato de levar o garfo à boca de alguém há cumplicidade. Ninguém faria isso com uma pessoa de que não gosta. E certamente não faria com um admirador se negasse peremptoriamente qualquer possibilidade de algo acontecer. A última coisa que aquele garfo carregava era crepe de camarão. Você me alimentava de esperança e auto-estima.
Não sei dizer bem o motivo, talvez pela esperança que despertou, mas foi no momento da primeira garfada que minha admiração se transformou em paixão. Se o amor acaba numa sorveteria, como disse Paulo Mendes Campos, por que não pode começar numa creperia? Engoli os camarões quase inteiros. Não que o sabor me incomodasse, estava alheio a isso, mas é que findo o ato de você conduzir o garfo à minha boca, mastigar e engolir era apenas um desfecho necessário porém desimportante. Continuamos conversando, apenas amigos numa creperia. E você me ofereceu outra garfada. De novo aceitei sem hesitar. Esperança e confiança cada vez maiores. Enquanto sua mão vinha me perguntei se você realmente não sabia que eu não gostava de camarão. Pouco importava. Lá vinha você. Você pousou o garfo na minha boca com cuidado incomum e só temos tal cuidado com quem temos carinho. Enquanto mastigava os camarões percebi que meus batimentos estavam acelerados. Minhas bochechas ficaram vermelhas, como de costume aliás, mas acho que você não lembrava disso, e, me vendo vermelho e suando, pediu ao garçom água mineral e um copo com gelo. Antes que ele atendesse ao pedido, contudo, insisti por nova garfada. Você cedeu. Mas dessa vez senti o familiar sabor de urubu refogado em maresia. Era terrível! Insuportável! Ainda sem ter engolido tudo e educado o suficiente para não cuspir corri pela rua aturdido, em busca de qualquer coisa para sobrepor aquele intolerável gosto que tomava minha boca e perturbava minha mente. Vi picolés. Enfiei as mãos no refrigerador, arranquei o primeiro em que toquei e logo fui engolindo-o. Na sorveteria, camarão e picolé misturavam-se em minha boca.



Texto: Renato Amado
Foto-pintura digital: Magda Rebello

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