quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Por enquanto




Para meu amigo Ivan Lucena

Por enquanto os dois amigos caminham pela rua e nem sabem o que será do dia. Se vai ter futebol na praça logo mais, se vão pular carniça, se vão pegar uva no mercadinho e comer escondido. É cedo e eles ainda não sabem.
Talvez eles desistam disso tudo e resolvam ir na casa da tia do amigo mais novo, só para vê-la trocando de roupa, com a porta entreaberta. A porta é velha e não fecha. O desejo deles é novo e também não fecha. Tanta coisa não fecha.
Por enquanto, talvez o melhor mesmo seja pegarem as bicicletas e descerem pela rua que dá na praia, onde os pais nunca passam a essa hora do dia, pular o muro do terreno baldio e esconder os fichários para matar aula sem inspetores, castigos, surras ou ameaças de transferência para o colégio militar. E sem ninguém se apressando em rasgar os diplomas que eles nasceram para alcançar lá no futuro, aquele lugar que ainda não fazem ideia para que lado fica.
Por enquanto só sabem para que lado fica o aeroporto. E é para lá que vão, em suas bicicletas. Seguem pela ruela estreita que margeia a baía. Ninguém aparece para detê-los, para perguntar o que querem. E o que querem? Só seguir adiante e é o que fazem. Quando percebem, estão na cabeceira da pista e se divertem fingindo aterrissar ou levantar voo. São eles próprios aviões subindo e descendo num balé desengonçado e transportando tanta gente para tantos lugares com tantas línguas que eles não entendem mas falam, entre berros e risos. Até que um outro barulho, bem maior, os faz perceber que, se eles são simples aviões de faz de conta, o que se aproxima é de verdade. O coração de cada um dispara e fogem numa correria louca, tentando alcançar seu próprio medo, que corre mais do que eles. Lá no final da ruela se atiram no meio das pedras, fecham os olhos e ouvem o avião pousar.
Por enquanto eles se levantam com alguns cortes nos cotovelos e nos joelhos, que sangram um pouco. Ainda não sabem que ninguém descobrirá sua aventura. E por mais que contem e jurem, ninguém da turma acreditará. Também não sabem que o pai do amigo mais novo foi transferido de cidade e vai embora no final desta semana. E que quando o amigo mais velho for correndo na casa do outro para se despedir, não correrá o suficiente, como eles fizeram na pista do aeroporto. E o amigo já terá ido embora.
Por enquanto eles não sabem que só daqui a 40 anos, o amigo mais velho e sua mulher subirão as escadas rolantes daquele mesmo aeroporto, para pegar um avião e, ao final da escada, um piloto ficará parado à frente deles. Ele estranhará, por um tempo bem curto. E sua memória correrá a tempo de reconhecer o amigo e de se abraçarem e do piloto contar para sua mulher a aventura que viveram logo ali, do outro lado da pista e da vida.

Imagem: Magali Rios
Texto: Cesar Cardoso

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