terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Verme!


Um rápido movimento. Ele chega a encostar a massa disforme, peluda, sarcástica, aquele trocinho que ele não sabe definir, sujeito ou objeto?, mas que está ali a provocá-lo sutilmente, daquele jeito que irrita, que não para, não descansa. O bicho cinzento que resolvera acabar com a sua paz fica por vezes parado, espreitando-o como se não tivesse pulmões, observando-o com olhos ubíquos, mas também se aproxima, recua, toca nele, retorna à posição inicial, saltita, talvez até gargalhe, uma gargalhada miúda e íntima que ninguém mais escuta, mas que ele vê bem, e então novamente um movimento ligeiro e ele chega a perceber que sua unha encosta velozmente no sujeitinho indeterminado que recua sem piscar, recua após cada ataque, e depois volta, foge, pula, volta, pula mais, outro lance, nova aproximação, agora o sujeito indefinido pula em cima dele, caminha em seu corpo como se seu corpo fosse um trajeto pronto, mas ele não vai permitir, vira-se e rodopia no ar, uma pirueta que espanta os que observam, mas não há ninguém observando além do Marcos, no sofá, com um sorriso tão sarcástico quanto o da pequena pulga – se pulga é – que o exaspera (mas não a Marcos), e ele agora está em posição de ataque, num relance pega o bicho, os dois rolam se contorcendo, aquele sujeitinho mínimo vai morrer porque ele vai matá-lo facilmente, eles caem e viram e rodam e seguem juntos para debaixo de alguma coisa que não se pode mais identificar o que é porque ele está pronto para trucidar com ele, porque tem ódio, porque tem ganas de acabar com tudo, mas o bicho também é bom em se livrar de armadilhas, e num pulo que ninguém saberia explicar com argumentos racionais ele já está livre, já está longe, está no alto da mesa olhando-o firme, rente, risonho, aquela sua risadinha interna que poucos são capazes de perceber, e então o monstrinho insuportável some e Félix olha para Marcos, que larga uma vareta com algo pendurado que ele não sabe o que é, se abaixa e o aperta, ‘Agora acabou a brincadeira, Félix, vamos aparar essas suas garras que daqui a pouco não temos mais sofá!’, e o deixa sozinho, sem entender nada, procurando o misto de rato e verme, muitíssimo mais verme do que rato, sem saber onde, e tendo que dar conta (sozinho! sozinho!) de toda a sua raiva e agitação.

Música de Gilson Beck.
Texto de Vivian Pizzinga.

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