terça-feira, 12 de março de 2013

Quando ela foi embora



Mochila nas costas, “isso aí é pra doação”, disse, parada na porta, olhando-me com uma firmeza que até então eu desconhecia, apontando as caixas empilhadas no canto da sala. Tudo começou a girar, era quase como uma morte, sabe? Tipo aquelas cenas em que o personagem vê a vida toda passando, filme dentro do filme, a vida inteira acontecendo de novo. O mundo girava por cima do apartamento, as viagens que fizemos juntos, o que vimos, os lugares que conhecemos de passagem, nos prometendo voltar, as ruas que ouviram os nosso passos, a vida se misturando com a vida e eu parado-travado no meio da sala de estar, o peito explodindo de dor, os pensamentos rodando, o mundo idem e eu, no meio daquele furacão, pensando: como é que ela consegue ir embora carregando só essa mochilinha? Olhei para ela e senti um carinho tão grande, uma tal e indefinida e correta ternura, como se olhasse uma criança se distraindo na caixa de areia da praça.

“Pode contar todas as nossas histórias por mim”, ela disse, “sou muito dispersa e pouco prática para as coisas do pensamento, sou caótica, penso milhares de coisas, desejo milhares de lugares, esta casa é pequena demais pra mim”. Foi quase como um depoimento, soou quase como um pedido de desculpas.

Eu gostaria de ter ido atrás dela, nem que fosse somente para fazer companhia, para que ela entendesse que “ei, continuo aqui, com você, como sempre”. Mas para mim também não havia mais como sempre.

Ontem chegou correspondência. Uma pequena carta, em que ela se despedia com  “saudades, sempre”, escrito na diagonal, preenchendo o grande espaço em branco que sobrou na folha. Junto, uma foto, “em nossa homenagem, por tudo o que fomos”, uma foto pequena, em preto e branco, em que se via o mundo inteiro.


Imagem: Marcos Sêmola
Texto: Ana Cláudia Calomeni

Rodada 41

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