sexta-feira, 29 de março de 2013

(silencioso)




Até ali eu tinha ido muito bem, seguido todas as instruções. “É um misto de réptil e humano”, e lá fui eu para horas de maquiagem, medições de figurino, testes de movimento, de luz para a fotografia. Toda vez que aparecia meu nome – na verdade, o nome do personagem – eu falava o que estava escrito. O meu nome apareceu várias vezes, de modo que disse várias frases, sempre no tom exigido.  
Assim: meu nome – o nome do personagem – em caixa alta, bem no meio da página. Abaixo, os parênteses e a emoção que eles trazem dentro daquele pequeno espaço – por exemplo, irritado. E só depois o texto, minha fala, minha voz, o produto da minha consciência, influenciado pela emoção dos parênteses, ganhando o ar na forma de discurso, sendo captado pelo microfone escondido em minha roupa de réptil e saindo nos ouvidos daquele grupo atento de pessoas, atentos a mim, a minha voz – quer dizer, à voz do personagem.
Tudo foi bem até que o texto se negou a ir adiante. Disse uma última fala e, sem morrer nem nada, sem nenhuma indicação do que o “misto de réptil e humano” iria fazer depois de sua marcante frase, o texto se acabou, e os últimos traços de tinta desenharam na página a palavra “Fim”, como se, num passe de mágica, tudo aquilo pelo que passei deixasse de ter importância para o grupo atento de pessoas. E foi assim, com uma frase forte, mas nunca definitiva, que presenciei o alívio do trabalho realizado no grupo de todos, a pressa em guardar tudo, em descaracterizar a minha casa – que eles chamam de estúdio, sem considerar que eu, réptil e homem, morei ali, comi ali, disse várias coisas ali, senti várias emoções nos parênteses daqueles cômodos iluminados.
Um homem entregou o último rolo a outro, pedindo pressa para reduzir toda a minha jornada a algo em torno de uma hora e meia, “para não cansar o público”, como se minha vida precisasse ser um espetáculo agradável às pessoas que pagaram para vê-la, “a meta é bater dois milhões”. Um homem sentado num computador iria decidir qual momento da minha existência seria bom para um público imaginário, provavelmente pensando no que poderia fazê-los rir mais, eles que detonam suas vidas miseráveis em horas patéticas, que viram dias patéticos, loucos feito viciados pela letargia cômica de mais um fim de semana. Todos os meus movimentos, todos os parênteses, todas as palavras, julgadas e guilhotinadas para provocar o riso em quem lhes der dinheiro.
Mas a essa altura eu não queria mais discutir. Sentado num dos poucos cantos que ainda não tinham sido esvaziados, olhava o movimento, a pressa em destruir qualquer vestígio da minha vida – que a partir de agora só teria o fim de divertir a quem pagasse. Tudo isso até me incomodava, mas era algo contra o que não poderia lutar. Ou melhor, não saberia lutar.
A única coisa que eu queria era que o papel em minha mão me dissesse o que fazer.

Imagem: Pacha Urbano
Texto: Saulo Aride

Rodada 41

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