sexta-feira, 26 de abril de 2013

Aos cacos




Começo a entender. Compreendo o que em você é inóspito. O que foi intransponível. Compreendo até a falta de amor. Confirmo nossos erros, um a um, a começar pelo dia em que nos conhecemos. Eu pensava em sua intransponibilidade quando vi você subir as escadas rolantes da estação do metrô do Largo do Machado, rindo, suas mãos compartilhando outras mãos. Eu descia ladeira abaixo, meus pés cansados, enquanto você subia sorrindo, falante, distribuindo empatia para o mundo, como sempre foi de seu feitio. Pensei que poderia calcular o momento exato em que nos cruzaríamos, usando as fórmulas de física que aprendemos quando adolescentes. Poderia prever o que pensaria no instante em que cruzaríamos nossos olhares e eu, simpático, lhe acenaria um adeus meio indiferente. Talvez fosse mais conveniente desviar meu olhar. O tempo não passava enquanto eu via você subindo as escadas, suas mãos pequenas compartilhando mãos desconhecidas, seu rosto enrubescido por novas ilusões, amorosamente inquieto. O tempo parecia elástico, minha imaginação explodia em conjecturas, meu corpo sustentava todo o passado que assinamos juntos. Optei por enfrentar você, mas no último degrau, desabei. Você olhou pra trás, continuou falando e fingiu que nada viu.

Fotografia: Magda Rebello
Texto: Danielle Schlossarek



3 comentários:

  1. Guilherme, o-fã-número-127 de abril de 2013 15:35

    Uma caco-fonia de sensações. Situações explodindo em "conjeturas" e possibilidades, no momento mesmo de sua impossibilidade. Ou sua intransponibilidade. Mas o final da narrativa meio q desmente, pois na elasticidade do tempo, algo foi transposto, afinal. Tudo mudou enquanto nada parecia mudar...

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