segunda-feira, 30 de abril de 2012

O inescrutável e inevitável mundo de Catarina Patrícia

Durante aquele mês de agosto de 2000 ele ficou hospedado no quarto 303 de um hotel barato, situado numa estreita rua, bem no centro de Dylath-Leen. Quase todas as noites, no bar do hotel, no tempo não muito exato em que fumava três cigarros marlboro, ele encontrava Catarina Patrícia, enquanto ela, por sua vez, consumia um copo de uísque red label com três pedras de gelo.
Quando viu Catarina Patrícia pela primeira vez, sentiu um alívio enorme por se deparar com uma mulher decididamente bonita naquela bisonha cidade próxima ao rio Skai. Ao mesmo tempo, detectou uma angústia igualmente intensa cuja origem não sabia definir com precisão. Pensou que essa angústia surgia de sua beleza excessiva, da forma como os cachos dourados do seu cabelo lhe envolviam o rosto redondo ou talvez do modo como segurava o copo e o levava até a boca com tranquilidade e firmeza absurdas. Ocorreu-lhe depois que apenas seu olhar perdido – e por que não dizer quase etéreo e vazio – vagando no ar fedorento de Dylath-Leen foi suficiente para encantá-lo. Em pouco tempo descobriu que Catarina Patrícia morava no hotel e todas as noites ia ao bar beber um copo de uísque, enquanto fazia algumas anotações num moleskine.
Quanto a ele, menos ainda se pode dizer. Era escritor e havia sido abandonado pela mulher que lhe deixara um bilhete dizendo o seguinte: “vou embora, meu querido. Antes que eu faça alguma bobagem, vou para algum lugar bem longe daqui porque não suporto mais viver com você”. A partir daí, ele resolveu viajar por pequenas cidades desconhecidas, morar em hotéis baratos, vender suas matérias para sites, revistas e jornais mais obscuros que as cidades em que pernoitava e, quem sabe um dia, entender o que se passou na cabeça dela. E o que mais o intrigava no breve bilhete não era a bobagem que ela faria. Não era o fato de considerar sua vida conjugal insuportável. Não era o lugar-comum das palavras escolhidas por uma mulher que era até bastante espirituosa. Era sim, apenas, a peculiar expressão “meu querido”. A piedade compassiva das ex-mulheres pode ser corrosiva, pensou, sem falar nos grandes estigmas que elas criam, muitas vezes desconhecendo essa estranha força que possuem. O resto, para ele, era claro como a visão de uma traição.
Catarina Patrícia, por sua vez, embora de uma beleza deslumbrante, era tão obscura quanto a cidade que ele elegera para morar durante aquele mês de agosto de 2000.
Passaram a conversar durante essas noites e suas breves conversas geralmente giravam superficialmente em torno de assuntos como: álcool, sistema de esgoto, remadores invisíveis, pessoas estranhas, piano, música, barcos sem tripulação e desaparecimentos súbitos de pessoas e, quando ele tentava entrar em matérias um pouco mais íntimas, ela respondia doce e sensualmente:
“Esse é um assunto muito particular, acho que o ar não está propício hoje” e continuava falando de como a cidade fedia, sabe-se lá por qual motivo.
Insistindo na intimidade, ele, por vezes, falava sobre sua própria vida e ela ouvia com atenção. Seus olhos amendoados vigiavam o espaço em branco entre uma frase e outra. Certa feita, ela disse:
“Tudo isso se deve ao acaso.” – e referindo-se à mulher que o abandonara recentemente – “ela deve ter conhecido outra pessoa e isso deve ter sido tão casual quanto nosso encontro aqui. Existem 83 hotéis nessa cidade. O que fez você se hospedar nesse? E o que me fez escolher esse pardieiro? E como continuamos a vir nesse bar deprimente?”
Ela falava como se tudo fosse um grande mistério. Grande mistério porra nenhuma, ele pensou de um jeito cínico sobre a inocência dela. Todos os bares são deprimentes nessa cidade, ele quase respondeu, mas desistiu porque, no mesmo momento, passou a pensar que, casualmente, também queria comê-la todas as noites seguintes, enquanto durasse sua hospedagem por Dylath-Leen. E, quando ele riu com esse pensamento, ela perguntou a razão do sorriso.
“O que existe é uma grande brincadeira dos deuses – se é que existem seres no controle dessas particularidades todas. Talvez estejamos apenas, representando uma vidinha bem mais ou menos. Estamos aqui, nesse fim de mundo, acabando com nossos pulmões e fígados, vendo notícias bizarras na televisão. Me intriga saber se eu e você podemos ser interessantes para alguém”.
Ela deu de ombros e ficaram em silêncio. Depois ela disse assim, subitamente: “Você está nesse fim de mundo porque foi abandonado. Eu, porque matei um homem. Não somos nem um pouco interessantes para ninguém”.A frase “eu, porque matei um homem”, saiu de um jeito tão casual, tão espontâneo, que ele ficou se perguntando se entendera direito o que ela acabara de dizer. A surpresa superou o seu encantamento inicial. Ele se perguntava como, quando, quem, onde, por quê, enquanto ela continuava com a tranquilidade habitual, segurando o copo quase vazio de uísque com a mão esquerda, momento em que ele pôde ver que ela usava uma aliança no dedo anular. Na televisão, outra notícia de desaparecimento.
“Como estão sumindo pessoas…”, ela continuou, sem dar a mínima para o estranhamento dele.
No instante em que ele desviou sua atenção para a jornalista que dava a notícia do desaparecimento na televisão, ela levantou e saiu andando, em linha reta, em direção à escada.“Espera”, ele gritou. “Me diz o que aconteceu. Preciso saber.”Ela sorriu de novo daquela forma doce e ele não imaginava como ela poderia matar sequer uma barata. “Já falei que hoje o dia não é propício. Não posso fazer muita coisa.”
Não conseguiu dormir naquela noite pensando em como Catarina Patrícia poderia ter matado um homem. Quando adormeceu, já amanhecia, o sol se escondendo por trás de cinzas nuvens de sujeira, fedor e poluição.
Acordou com um barulho intenso de navio. Levantou, foi até a janela e viu Catarina Patrícia que agora usava longos e lisos cabelos pretos que lembravam vagamente os cabelos de sua ex-mulher. Ela saía do hotel com duas pequenas malas vermelhas. O mesmo jeito absurdamente tranquilo com que se espantara na noite anterior. Ela olhou em sua direção, usando esse breve instante para despedir-se. Depois, entrou num carro e desapareceu. Sumiu de vista assim como várias pessoas haviam sumido durante aquele ano. A visão dela indo embora era quase previsível. Sentia que era o que acontecia em sua vida inteira. Ela, indo embora, era tudo o que passou a reconhecer nos seus dias em Dylath-Leen. Ele ainda perguntou na recepção se alguém sabia do destino de Catarina Patrícia, mas não obteve qualquer resposta. Era impossível conseguir qualquer informação em Dylath-Leen. Mas tinha a estranha sensação de estar, de alguma forma que não podia explicar, ligado permanentemente a ela.
Tempos depois, recebeu uma breve carta com uma fotografia de Sarkomand, enviada por Catarina Patrícia que havia ido parar nessa cidade perto do planalto de Leng. Ele não teve dúvida e partiu para lá. Procurou-a em todos os lugares. Um dia – e parecia que havia se passado muito tempo – não sabendo dizer de que maneira, pois ela não tinha como saber o endereço atual dele, recebeu outra carta e outra fotografia. Dessa vez, ela estava numa não menos desconhecida cidade chamada Celephais. Depois disso, onde quer que ele estivesse, em qualquer lugar, em qualquer país, continuava a receber cartas dela, com fotos dos mais impossíveis e inescrutáveis lugares do mundo. Todas eram datadas do mês de agosto de 2000. E ela lhe dizia mais ou menos o seguinte:
“Meu querido, continuo procurando um lugar ideal para pessoas como nós dois. Onde talvez possamos ter um pouco de paz. Ou apenas esquecimento”.

(um conto em homenagem às cidades imaginárias de H. P. Lovecraft)



Texto: Danielle Costa
Imagem: Paulo Resende

3 comentários:

  1. Conto clássico da Dani, mistura de Lovecraft e Sam Shepard, com a sabedoria melancólica de Catarina Patricia, para acolher o acaso, nas situações como sempre indefinidas e indefiníveis. Dylath-Leen é logo ali. perfeita leitura visual do Paulo Resende...

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