segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O inferno todo dela




Estava um calor insuportável e ela falava comigo enquanto me encarava com todo seu corpo. Assim, sem qualquer dúvida, nenhum vestígio de remorso, como se fosse algo muito natural, como se seu corpo implorasse uma transformação e eu o impedisse. Como se houvesse algo a ser dito há muito tempo. Desde o momento em que nos conhecemos. Enquanto inclinava sua cabeça para o lado, descansando de um fardo desconhecido para mim, ainda assim, eu sentia que seus braços, suas mãos, seu colo, à mostra graças a seus decotes fenomenais, me encaravam, esperavam uma resposta, uma reação que não vinha. Não vinha, nem no sonho que eu cogitava ter com ela.

Ela falou durante minutos e eu não conseguia erguer meus olhos.

Tudo na minha casa me remetia a ela, de algum jeito. O cinzeiro, o secador de cabelos, o ipod cheio de músicas desconhecidas, postais de lugares que nunca visitamos, uma pilha de filmes clássicos, outra pilha de livros de autoajuda, garrafas de mate limão.

Lembrei de uma noite em que ficamos acordados até o amanhecer, vendo musicais na TV. Ela sorria de um jeito que me enternecia e me constrangia ao mesmo tempo. De um modo inocente, terno, de uma maneira propositadamente tola, como ela, definitivamente, não era.

Comprou um secador de cabelos e o deixou na minha casa. Depois de tomar banho, secava, durante minutos, os cabelos pretos, longos, enquanto pensava em coisas que eu sequer cogitava imaginar. Um dia ela me disse:

“Quando eu era adolescente, me identificava com a Carrie.”

“Carrie, a estranha?”

“Sim, lembra?”

Ela tirou a toalha vermelha que a envolvia e me peguei esperando vê-la sangrar por entre as pernas a qualquer momento.

“Estranha é uma palavra genérica demais. Por que colocaram isso no título?”.

“Bem, mas ela era estranha, de fato. Eu sou assim também. Você não acha?”

Cortei o assunto, antes que ela me dissesse que tinha poderes telecinéticos. Abracei seu corpo, ainda gelado, por causa do banho frio e deitei sua cabeça sobre meu braço esquerdo. Sim, ela era estranha e o mais absurdo era que aquele momento parecia perfeito assim. Com todo o desconhecido que a envolvia.

Numa outra noite, acordei sobressaltado enquanto ela chorava ao meu lado. Ela me disse que tinha recebido um telefonema e que uma amiga estava ferida, machucada no hospital. Disse que tinha muito medo que ela morresse assim de repente. Tinha esse medo em especial com certas pessoas. “Tenho um pavor imenso de mortes repentinas”, ela continuava, quase histérica.

Lembrei disso, enquanto pensava se ela tinha esse mesmo medo com relação a mim. Algum dia ela chorou pensando que eu poderia morrer de repente? Ou agora, enquanto ela não tinha terminado de me dizer tudo o que queria?

Foi de um jeito contraditório, simples e temerário, confuso e intrincado, que ela, aos poucos, me jogou num inferno todo dela. E agora que eu já estava ali não queria mais sair.

Foi quando ela me perguntou, com os olhos distantes e persecutórios:

“Você não vai dizer nada?”

Pensei no secador de cabelos, no seu ipod, na sua pilha de livros de autoajuda, na sua amiga ferida no hospital e, finalmente, em Carrie, a estranha. E não tive dúvidas.

“Vou, vou sim”, e comecei a falar.


Texto de Danielle Costa inspirado na imagem de Diego Kaeli

6 comentários:

  1. Todo mundo é um pouco estranho mesmo. Gostei à beça! XD

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  2. Valeu Danielle! Muito bom! Esse processo do nosso projeto é sempre uma surpresa super agradável. Esse clima que tu criou me lembrou o Jogo da Amarelinha do Cortázar. Só valeu!
    Abração
    Diego

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  3. os seres + bizarros ocupam o universo insólito de diego kl, como ele msm diz, sua "metafísica do cotidiano". pois é do cotidiano msm, como a dani nos mostra em q há um bicho esquisito em cada um de nós, um inferno sob qq situação pacificada. aliás, vivi esta história ontem msm...

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  4. dani, você sabe que quando eu era adolescente, eu me identificava com a carrie mesmo? eu era muuuuito carrie na escola... com direito a ventanias e eventos fantasmagóricos! hahahahaha. melhor nem lembrar... e a imagem do diego?! estraaaaaaaaaaanha! um brinde à estranheza!!!

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  5. Que imagem foda!
    só essa palavra define.
    E o texto acompanhou a definição.
    ;)

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