quarta-feira, 24 de abril de 2013

Os outros e eu



Sinto tremer em mim a vontade de não sair de casa. Então retorno, desfazendo aquela metade de caminho que eu começava a construir. Quando chego, ainda ouço os ruídos que se originam nos apartamentos vizinhos. Não posso evitá-los, o vão central do prédio nos une e eu sei de toda a sua vida através do basculante da cozinha. Confundo-me com eles, inclusive, achando que suas crises, seus conflitos, seus dilemas me pertencem. Enquanto descasco a cenoura, corto o tomate, tempero o feijão, ouço tudo o que dizem. Não seria diferente hoje, dia em que o denso calor resolve obstruir minhas passagens de ar. Era necessário que eu pudesse lacrar a casa inteira, cerrar a cortina, envolver-me em minhas fronteiras, quem sabe queimar um incenso. Mas os ruídos, eles atravessam as paredes. As paredes, elas não demarcam nada. Vidas e vidas se misturam nessa torre quadrada de apartamentos conjugados, onde moro há um par de anos. E o máximo que posso fazer, nessa áspera tarde de verão, é tomar um banho frio, lavar a cabeça, ligar o ventilador de teto, deitar-me no chão e não me relacionar com ninguém, apenas comigo mesma e com um ou outro livro que venha a me interessar nas próximas horas. Voltar toda a minha atenção para mim mesma e para os objetos que um dia coloquei nesse apartamento, ainda que meu ouvido não possa escapar do barulho do inseticida num dos apartamentos ao lado que, com sua agudeza inconfundível, estraçalha quimicamente uma barata. E, na sequência, o baque seco e breve do chinelo complementando o ato de matar. Acompanho, em imaginação, com a ajuda dos sons, a vida inteira dos meus vizinhos e dos bichos que invadem suas casas. Esse deve ser um dos sinais da pós-modernidade.



Texto: Vivian Pizzinga
Imagem: Marcos Sêmola

2 comentários:

  1. Guilherme, o ex-vizinho27 de abril de 2013 15:28

    O inferno não são os outros, nós somos os outros, ou os outros somos nós. Ou o inferno somos nós mesmos. Adorei o preciso enquadramento dessa foto do Sêmola, o desfocamento nos talheres e o foco na janela do vizinho. a vida dos outros mais nítida q nossa próprias vidas...

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