quinta-feira, 5 de maio de 2011

Possibilidades


Abriu os olhos durante dois minutos e vinte segundos e, a princípio, viu apenas o chão amarelado de um banheiro público imundo e fedorento e aos poucos a mancha de sangue que ganhava os azulejos, muito calmamente, certa, contudo, de rumar para qualquer lugar fora do seu corpo. Pensa em como foi parar ali, sente todos os cheiros possíveis misturados, inclusive, distingue um cheiro forte de gasolina, pensa se foi covarde horas antes, ou se foi covarde em algum momento de sua vida, não lembra de um fato concreto, mas sente vergonha, remorso e dúvida, lembra que tem vinte e sete anos apenas e que ela não está por perto, ali, quando ele mais precisava de sua ajuda. Simplesmente porque ela nunca esteve por perto e esse sentimento chega de modo tão intenso que sente lágrimas também escorrendo de seu corpo, que se juntam ao sangue profuso, à urina e ao suor daquele banheiro sujo de um posto de gasolina qualquer. Tenta falar: alguém. Tenta falar: ei. Tenta falar: me ajude. Pensa no nome dela, mas não consegue dizer. Sua garganta emite um grunhido qualquer e sente um forte gosto de sangue. Sente dor na boca, nas mandíbulas, nas costas e nos braços. Sente frio e, de repente, um pontapé no rosto, mas não vê qualquer pessoa, percebe que é uma espécie de deja vu, não consegue lembrar o que aconteceu e se perturba com a total ausência de ruído. Só ouve o silêncio. E sabe que dentro do silêncio residem seus medos, percebe que pode contá-los um a um, naquele instante, a cada batida do seu coração. Medo de ser covarde. Medo de ficar sozinho. Medo de morrer. Medo de ser esquecido de repente. Medo de morrer sozinho, esquecido e covarde. Escuta seu coração muito lento, como se fosse escorrer de si e se partir em dois. Enquanto ela carrega uma metade, ele vai embora com a outra. Só que essa metade restante não é mais suficiente para fazê-lo falar, não é mais suficiente para fazê-lo se levantar e viver. Não é mais suficiente. Pensa que está morrendo, e o fato de não se lembrar de nada mais, exceto dela, o angustia mais do que a possibilidade iminente da morte. Por que apenas ela surge à sua frente, como uma exigência contínua e permanente, sua voz no meio do silêncio, seu rosto no meio dos azulejos sujos de um banheiro público? Talvez, com a imagem dela em mente, consiga se levantar e ir pra casa. Deseja fazer com que ela volte a ser apenas como ele a imaginava. Deseja fazer com que tudo seja novamente como ele imaginava. De repente lembra de palavras não ditas, de novas perguntas formuladas exatamente nos limites das antigas dúvidas, de respostas exatas que dão conta perfeitamente do seu próprio entendimento. Lembra de uma tarde de sol em que ela lhe disse como tudo naquele dia parecia perfeito e pensa que, exatamente naquele momento, poderia ter tomado qualquer decisão frente às inúmeras possibilidades que lhe surgiam. Mas se lembra que nesse dia escolheu ficar inerte. Dentre todas as possibilidades, escolheu nada fazer. Como agora, naquele banheiro público. Já que não consegue falar, apenas escuta. Vozes indistintas quebram o silêncio tenebroso do banheiro amarelo. Tenta distinguir a voz dela, mas não consegue. Deseja tanto que pensa escutar seu nome. Ao mesmo tempo, sente um forte cheiro de gasolina. Nesse segundo, fecha os olhos e, então, ouve apenas uma única explosão. Depois, novamente o silêncio absoluto.

Imagem: Marcelo Damm

Texto: Danielle Costa

4 comentários:

  1. angustiante, muito angustiante o tx da dani. e q imagem do Damm, uma das melhores! putting out fire with gasoline...

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  2. Estou pasmo. Fantástico, Dani. Obrigado mesmo!

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  3. Dani e Marcelo estavam inspirados! Parabens! Esse texto, alias (desculpem a falta de acentos, eles estao de folga porque estamos as vesperas do dia do trabalho e crases e circunflexos nao darao as caras aqui...) estah mais do que inspirado. Ele transborda. Adoro o ritmo, a musicalidade, a asfixia inicial das memorias, imagens, ideias. Adoro a forma, que deu um brilho fantastico ao conteudo e jah o tornou alguma outra coisa ainda melhor. Adorei!!! Dani, definitivamente vc tem que destinar mais tempo a escrever! Nao eh justo, pq estamos perdendo muitos textos otimos!!!!

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