quinta-feira, 23 de maio de 2013

Burca

Do mesmo jeito que nos conhecemos, ela se foi. Lembro, com exatidão, como se deu todo o nosso relacionamento.

Eu estava sentada, sozinha, na mesa de um bom restaurante, mas, mais do que isso, muito acolhedor. O frio lá fora congelava as esperanças e os amores mais intensos.

Chamou minha atenção a sua vestimenta preta, por onde eu via, tão somente, os seus olhos. Depois de procurar um pouco, demonstrando certa timidez e insegurança, sentou bem na minha frente. Enquanto se acomodava, eu acompanhava seus gestos. Quanta delicadeza!

Logo que sentou, levantou o olhar e nos conhecemos. Os olhos mais intensos e brilhantes jamais vistos por mim! Logo pensei: será a cobertura de todas as outras partes do corpo que produzem a intensidade e o brilho deste olhar? Impossível saber. Trata-se de realidade muito, muito distante da minha.

Depois de uns segundos com os nossos olhares cruzados, congelando o tempo, ela abaixou o olhar e fez que não com a cabeça. Aquele encontro não era permitido. Respeitei. Voei pra outros outros lugares.

Mas, sempre que virava na sua direção, encontrava os seus olhos. Apesar da sua negação inicial, resolvi burlar. 

E foi assim. Olhamo-nos por horas. Tudo foi dito e revelado naqueles olhares. Podia ver o movimento do pano quando sorria, quando se zangava. Eu sorria escancaradamente. Não havia nada que me segurasse. Parecia que se divertir com isso.

Quando a nossa conversa corria muito bem, de uma hora pra outra, ela fechou o olhar e abaixou a cabeça. Neste mesmo instante, vejo um homem baixo, barbudo, com gestos rudes, se aproximar. Impossível pra mim imaginar que alguém, portadora de tamanha delicadeza, jamais percebida por mim em qualquer outra mulher, se relacionasse com aquele tipo de homem. 

Ele falou algo impossível de entender - era uma língua absolutamente estranha – e pagou a conta, fazendo-a se levantar sem nem tomar o chá. Enquanto se encasacava, olhou pra mim de maneira tão profunda e amável, que nossas almas se reverenciaram. Ambas sabíamos a profundidade daquele encontro. Do mesmo jeito que nos conhecemos, ela se foi.



Texto: Ericka Gavinho
Imagem: Magda Rebello
Rodada 42 - Invertida


Um comentário: