sábado, 18 de maio de 2013

FEITOR E MÁRTIR





      Quando acordei hoje cedo, o gosto amargo e azedo de cigarro e álcool subia de minhas entranhas. Bebida de merda, gente de merda, vida de merda. 
 Tive que insistir, continuar, e o dia foi passando.  A meu redor, só miseráveis como eu, mas a maioria disfarça bem.  Não sou melhor que
 ninguém, tampouco a escória que dizem.  Grana de merda, sistema de merda. E assim corre o tempo, a semana, a vida. Escravo de tudo, não
 admito.  Engrenagem, sou feitor e mártir.  Impotente, sou perdido e só, qual joguete ingênuo que se julga livre.

       E assim passo com as gentes, as ruas, as aflições do mundo. Em dado momento, quase que desperto. Viro pro lado e vejo um homem, um homem caído.
 Ele definha, ele repousa, ele debocha. Quanta pena, quanta inveja, quanta raiva.  Retomo o prumo, abaixo a cabeça, aperto o passo. E passo.


Texto: André Calazans
Imagem: Paulo Resende
Post extra

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