segunda-feira, 6 de maio de 2013

INVENTÁRIO


Então tá, pode ficar com a tevê. Os discos, nem todos. Leva esses, pode levar. Aquele outro também. Os livros, só os seus. Esses daí. Não, esse é meu. Eu sei que te dei, mas você nem o prefácio leu, e eu li ele todo mais de uma vez, então é meu. Leva as fotografias, o travesseiro, os sonhos. Leva logo o resto das suas roupas, me ajuda a me livrar de você sem que eu tenha que falar mais nada, até porque a gente não tem mais nada pra se dizer. Dez anos não são dez dias e chega uma hora tudo vira variação sobre o mesmo tema. Cansei de mim com você, de você, da sua voz, do jeito que você passa a manteiga no pão.
Se lembra daquela vez que eu disse que ia passar o final de semana num congresso lá em São Paulo? Mentira, pura mentira, passei foi o final de semana inteiro com o Marcos em Angra. Por que eu tô te falando isso agora? Nem sei, por vingança, desatino, pra não sair perdendo, de ódio, sei lá. Pra dividir com você um pouco desse ressentimento que eu tô levando. Ou você acha que só os objetos podem ser divididos? É, eu também sou escrota. Não, não me olha com essa cara de não-acredito-no-que-estou-ouvindo, como se eu fosse uma, sei lá, uma santa destronada. Leva isso também com você: que dividiu dez anos da sua vida com uma mulher que você desconhece. Bem vindo a mim. Quer saber? Cansei. De falar, de tentar, de não tentar. E de chorar, principalmente de chorar.
Ele virou as costas e foi embora, carregando milhares de verbos compostos, todos os que formaram a vida deles durante aqueles anos: ele queria ter dito que a amava quando ainda tinha tempo, gostaria de ter conseguido abraçá-la quando ainda havia espaço, queria ter tido força para tentar de novo quando os olhos dela ainda procuravam os seus, queria ter sabido dizer o que ela gostaria de ouvir quando o recomeço ainda era possível, queria que tudo tivesse sido diferente.
Agora ele só conseguia pensar que gostaria de recomeçar sua vida como se ela nunca tivesse existido.


Texto: Ana Claudia Calomeni
Imagem: Pilar Domingo

5 comentários:

  1. E, o que vem pela frente, ninguém sabe... Texto e foto excelentes, parabéns à dupla!

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  2. Excelente post, EX-CE-LEN-TE! A foto está linda e o texto está perfeito. Adorei o "bem-vindo a mim", adorei que ele foi embora "carregando milhares de verbos compostos", esse texto composto e decomposto, muito muito bom!

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  3. "Cansei de mim com você" e não "Cansei de você": isso é o essencial aprender de uma separação. Essa imagem do Sêmola está bastante inusitada, mas a Ana entendeu bem o espírito: em que ermo vai dar esta escada?

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    1. Sêmola, não, perdão, Pilar Domingo, fiz enorme confusão!

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