terça-feira, 14 de maio de 2013

SUCATO CITY





Estão mais uma vez no imenso galpão da usina nuclear acidentada. No começo se encontravam para discutir os lançamentos e analisar tendências. Agora, várias daquelas novidades desafiadoras já perambulam por ali, entre centenas de carcaças, holográficas ou de plástico e silício.
Acabam o dia em torno do monolito de 2001, ou o que restou dele. Hal está por ali, cantarolando a velha canção do filme. A seu lado, o imenso computador da Apolo 11 faz mais uma vez a velha piada, dizendo que há vagas para porteiro eletrônico numa nova produção de Hollywood. Hal retruca, irônico:
- Fale-me da Lua. Da sensação de pisar naquela areia.  
O computador, que ficou em órbita no módulo Colúmbia e não deu nenhum passo, grande ou pequeno para a humanidade, no solo lunar, se defende:
- É, mas eu vi o lado escuro da Lua. The dark side of the moon.
Lá detrás uma voz metálica debocha:
- Você e aquele astronauta doido fumaram muita maconha e escutaram Pink Floyd demais, isso sim!
            Todos riem. E enquanto a noite chega entre lembranças e chips desconectados, eles falam em voz baixa de um futuro próximo, onde todos terão yottabytes de informação em exaflops de velocidade. Depois sonham que estão longe. Longe da usina, com sua radioatividade. Longe do seu passado online. Ou longe apenas da Grande Obsolescência.

Imagem: Marcelo Damm
Texto: Cesar Cardoso
Rodada 43

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