sexta-feira, 3 de maio de 2013

Toc, toc, toc



Apaguei as luzes depois de retirar todos os fios das tomadas e de desligar o gás do fogão e do aquecedor e trancar a porta com a fechadura normal, trinco, papaiz e correntinha, e checar novamente as tomadas, é claro, porque pesquisas mostram que a causa principal de incêndios domésticos é o curto circuito, e de repente ouço um toc, toc, toc, alguém bate à porta, deve ser o meu amor que veio jantar e eu esqueci, esqueci o assado especial pra ocasião no forno desligado, e batem novamente – toc, toc, toc, já vai!, olho pelo olho mágico, não é ela, é o porteiro gesticulando impaciente, acho que ninguém vem jantar hoje e nem sequer tenho um amor, a última garota nunca mais apareceu depois que pedi à ela que lavasse a mão algumas vezes antes de comermos, não sei qual o problema, não seria aquela água que mataria a sede de flagelados em outras paragens, e higiene nunca é demais, mas o que será que quer o porteiro?, mas antes de atender eu olho o forno, não há assado algum, eu já sabia, e tenho que tomar um banho, estou sujo, estou imundo, o porteiro pode esperar, toc, toc, toc, ele insiste, eu finjo que não escuto, nada tenho pra falar com ele, entro no chuveiro , a água quente me acalma, eu pego a esponja e passo a parte abrasiva com força no corpo, toc, toc, toc, saio do banho molhado pingando pela casa e enxugando com o tapete do banheiro, faço isso desde criança, depois refaço o mesmo caminho pra enxugar melhor, pergunto a ele o que ele quer, ele me diz que tem um sedex há dois dias pra me entregar e eu não atendo o interfone nem a campainha, peço pra botar colado na porta que eu pego, pois estou molhado, ele resmunga qualquer coisa sobre assinar o recebimento e vai embora, olho com atenção e abro a porta num átimo e pego o pacote, volto pro banho aliviado e me esfrego mais e mais, a pele cada vez mais vermelha, e então volto a ouvir o barulho na porta – toc, toc, toc. Só pode ser minha imaginação dessa vez.


Texto: André Calazans
Imagem: Rudy Trindade

3 comentários:

  1. Este post está muito bom, o texto do Calazans prende do início ao fim, afinal, não há nenhum assado, há ou não há?, não há nenhum amor esperando ou pra chegar, há ou não há?, mas há um sedex lá embaixo esperando, há ou não há?. Muito bom! E a foto do Rudy faz jus ao trabalho, parabéns à dupla!!!!

    ResponderExcluir
  2. Quantos muros nos separam do real contato com o outro?

    ResponderExcluir