terça-feira, 21 de maio de 2013

todos os muros o muro




todos os muros o muro                        

num misto de força feita de fé e asfalto, recém-empregado, certo de que a ciência dos ‘dotô’ vai redimir todo mundo e livrar toda a gente do calor enorme por dentro dos capacetes e por dentro das luvas, do barulho ensurdecedor dos automóveis e das britadeiras, dessa vontade de desmaiar de vez em quando, de forma consciente e planejada, cair, dizer que não dá mais, mas estudaram muito bem os engenheiros nas melhores escolas e, brancos, sabem todos os cálculos estruturais e, ricos, sabem escolher o melhor tipo de vergalhão, a melhor argamassa e, cultos, devem ouvir música clássica nos fones que levam música pros ouvidos deles enquanto os outros fones têm a função apenas de livrar os ouvidos do ruído quente que faz do lado de fora e trazer um pouco de paz enquanto cresce a vontade do desmaio pensando que o mundo nunca é daqueles que sujam as mãos, parvos e escamoteados, donos de uma fixação esquisita em mostrar ao mundo a sua ingenuidade mentirosa ao passo em que na verdade, fazer aquele serviço lambão, porco, feio, é só mais uma forma de mostrar a essa gente amedrontada que tem uma galera que não tem medo de errar porque nunca lhes ensinaram o certo, que não tem medo de ser processada porque nunca lhes mostraram os seus direitos, que não tem medo de perder tudo porque nunca tiveram nada, e que por trás de uma ingenuidade fácil que escorre pelos dentes amarelados de muito cigarro desde os doze anos, existe uma fera indômita e raivosa, um ódio que não pode aplacado nem com a obrigação da cordialidade nem com a falsa amizade que se propõe quando eles vêm chamar de ‘guerreiro’, ‘parceiro’, ‘campeão’, quando eles oferecem a mesma refeição que comem e chamam para a mesma mesa justo no dia em que a refeição era aquela abobrinha maltrapilha e uns pedaços de batata feitos sem apuro, porque pobre gosta de comer muito, e vão chamar os filhinhos para observar cuidadosamente como seguram o garfo e como jamais usam a faca e como se borram com o guardanapo, dizendo que seja-o-que-for, nunca comam desse jeito que nem um troglodita, mantenham sempre a educação e a classe, talheres de dentro para fora, a arte de abrir um vinho, a arte de ouvir Chopin ou o jazz que lhes foi paulatinamente desapropriado nas últimas décadas em que se viram crescer os arranha-céus da China ou de Dubai, encalacrando as pessoas em prisões disfarçadas de conforto, grife e elegância e relegando à muralha que  nunca pôde ser vista da lua um papel meramente figurativo quando as grandes muralhas são cada vez mais as outras, às vezes invisíveis, mas às vezes vivas e impávidas, todos os muros o muro erigindo um eufemismo do desfavor ao chamá-lo de barreira acústica quando todo mundo sabe exatamente qual é a função de um muro, segregar, separar, dividir, apartar, impedir, destruir essa coisa que se vem construindo de forma reincidente e cadenciada, ritmada, tijolo por tijolo e pá de cimento, todos os muros o muro que se constrói só de um lado, num misto de força e fé feita de asfalto, porque só em um dos lados do muro as pessoas sujam as mãos, mas apesar das luvas que eles jogam insistentemente por cima em direção ao outro lado na ânsia da assepsia universal, não foram capazes de extinguir os abraços.


Imagem: Maria Emilia Algebaile
Texto: Igor Dias
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