sábado, 25 de maio de 2013

Vida Noturna

      
           Acendo um cigarro molhado de chuva, aliso no bolso o vazio da calça de brim. Guarda chuva crepitando, alguém pede fogo: é um dos nossos.
Da parede, Jesus Cristo vigia os homens com seus pigarros, histórias e perdigotos. Penetro o umbral da fumaça azul dos cigarros que vai dançar em volta da luz.
Eu sou o João na mesa do fundo.
Uísque ao garçom, o copo robusto desenha um círculo úmido na mesa. Adiante irrompe a risada generosa do homem gordo ao balcão – a atmosfera cinza do lugar é entrecortada  por um instante, mas logo tudo volta ao normal, e o normal é o de sempre: alguém apoiado à cadeira.
É você o João?
Desconfiado parece. Cumprimenta com leve aceno de cabeça antes de se sentar. Lenço desbotado enxugando a testa, uma gota escapa incólume(suor ou água da chuva?). Grisalho, o senhor se apresenta em barbas feitas e blusa de propaganda. Pede conhaque e pra mim, nada? O copo não chega a marcar um círculo.
Tenta o trivial, e eu, monossílabo, nem que sim nem que não. Oferece fumo de filtro amarelo, risca o fósforo trêmulo, a mão protegendo o fogo frágil na cabeça do palito, mais uma vez se sou João.
Eu sou o último trago no copo de uísque.
     Gelo derretendo, pergunta se no meu ou no seu. Apartamento pequeno, lembra um esconderijo. Duas manchas de infiltração, um gotejo único explode no tapete gasto. Frio lagarto branco espreitando sua presa: é o olhar da lagartixa que atrai a mosca.
—  Não precisa tirar os sapatos. Sente-se aí.
Some por trás da parede pintada sem arte, ressurge em meia garrafade uísque barato, desculpa a falta do gelo.
Na beira da cama, a mão toca a perna por cima da calça, desliza pela coxa hesitante, desiste e vai ao peito, adivinha uma letra no pingente de prata, detém-se tátil na cicatriz...Beija leve, quase não tocando o rosto — o lábio é um fino risco acima do queixo — percorre o ventre sem pelos e morre na cintura.
Língua áspera de gato, enche a mão com o volume da calça — a outra segura inutilmente o copo vazio. A televisão ligada por ninguém, outro gotejo no tapete encharcado, saliva contaminada pelo sal da lágrima (minha ou dele?); dedos brincam na virilha, ganham coragem para massagear a pele quente e, súbito, a boca no grande coração azul.
Eu sou a chuva caindo lá fora.
Dentes arranham a lança vibrante de Heitor — flecha de Páris ou tendão de Aquiles? Eu sou a miséria da mosca.
Nu, quer que acaricie o rosto; ventre flácido, umbigo cavernoso; Põe-se de lado, a cabeça repousando sobre o antebraço, é a vez do João: O Incrível Dedo-Sem-Unha na gruta movediça...
Despede-se da porta, um recado importante:
—    Se me vir na rua, mulher e filhos, se é que pode entender...
Nenhum aceno de mão escada abaixo.
Água fina em meu rosto, olhos embaçados, acendo um cigarro molhado de chuva, aliso as notas no bolso da calça de brim.
Eu sou a vida noturna do João.
11 de Novembro de 2005


O mote me foi sugerido pela canção homônima de João Bosco e Aldir Blanc.
O personagem deste conto não faz referência a João Bosco.




Texto: JD Lucas
Imagem: Maria Matina
Rodada 42 - Invertida

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