sexta-feira, 28 de junho de 2013

Exemplar


Exemplar
Com naturalidade pegou na mão da namorada que, assustada, quis se desvencilhar. Ao receber um apertão mais forte, contudo, rendeu-se. A mãe, ao lado, cansada por causa da ladeira, não reparou de imediato. Daniela imaginara o diálogo diversas vezes, mas nunca pensou de forma séria em contar à mãe. Mais do que sua reação, temia seu julgamento. Temia até a própria especulação sobre o que ela julgaria. As mãos não poderiam estar juntas.
 Apenas passeavam num domingo, não havia um caminho pré-definido. A mãe acabou por ver as mãos unidas.
 - Agora mulé anda de mãos dadas, né?
- A gente costuma.
- Sei... mas parece até que é coisa errada.
Soltou a mão da namorada. O arroubo libertador não resistira ao menor indício de julgamento negativo.
Deixou de convidar a namorada à sua casa ou a qualquer evento em que a mãe estivesse. Não poderia causar desgosto àquela mulher que tanto esperava dela.
 Os anos foram passando. A mãe não lhe perguntava sobre namorado. Provavelmente, vê-la assexuada era a opção que mais lhe agradava. Sem um homem para levar sua filhinha de casa. Às vezes a mãe se flagrava se perguntando sobre a vida sexual de sua filha. Será que aconteciam coisas esporádicas? Um negocinho aqui outro ali? Seria realmente assexuada? E aquela mão dada para uma amiga que nunca mais apareceu após o episódio?
 A namorada falava em morarem juntas. Ela também queria. Queria muito. Bastava ir. Sua mãe ficaria decepcionada. Esbravejaria. Durante um mês ou um pouco mais não falaria com ela, mas depois a convivência seria retomada. Mas ela era filha exemplar e incapaz de decepcionar sua mãe.
Servir-lhe sopa com cianeto matou o problema.

Imagem: Andre Calazans
Texto: Renato Amado

Rodada extra

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