segunda-feira, 10 de junho de 2013

Homem



Tudo começou - ou melhor, eu percebi que já havia começado - num simples jantar em casa, num horário propositalmente tardio devido ao horário de sua faculdade. Ele deu a primeira garfada no salmão e comentou comigo "Já comeu salmão cru? É mais gostoso ainda".

Não, eu nunca tinha comido salmão cru, e na mesma hora comecei a me questionar onde ele poderia ter se deleitado com uma iguaria que eu mesmo não pus em casa. A conclusão era óbvia, embora dolorosa: ele não mais se alimentava apenas do que eu punha à mesa. Meu papel de homem, de caçador da família, daquele que vai à rua e traz o pão - cru ou assado - estava posto em xeque.

Depois vieram as músicas. "Já ouviu essa banda nova?" Não, não ouvi. E não teria como ouvir, pois as tecnologias que transmitem o novo nos excluem como um segurança às avessas, que barra com veemência a entrada dos maiores de certa idade.

Pouco a pouco fui vendo que ele se tornava um homem, um outro homem em minha própria casa, no limbo entre o início de seu amadurecimento e sua saída para formar uma nova família. Durante tanto tempo fiz o possível justamente para que se tornasse um homem, desde as trivialidades de segurar a mamadeira, limpar a bunda, trocar a fralda, ensinar valores, colocar música para ouvir, ajudar nos deveres, até a complexidade das decisões que ele nunca soube ou saberá que tomei em seu nome, em nome do momento que chegaria - e chegou.

Poucos dias depois de jantarmos salmão, eu o pus de pé ainda cedo e mandei que se arrumasse, iria conseguir para ele um estágio. Se era homem para comer algo além de minha comida, já deveria sê-lo para assumir responsabilidades. Com ele a tiracolo, encontrei vaga de voluntário num serviço para pessoas carentes.

Bom.

Quero ver se é homem agora.

Seis meses depois, me apareceu em casa com um endereço de e-mail. "Estava no mural da sala. Estão querendo estagiários". Estão? Quem estão? Quem são eles? Que mundo existe além do que eu criei, além das pessoas a quem o apresentei, além dos trabalhos que eu consigo? Que mundo é esse de salmão cru e estágios em mural?

Apavorado, desafiei-o a enviar seu currículo.

Uma semana depois, estava contratado.

Ainda o sigo, às escondidas, toda vez que salta do metrô rumo a seu trabalho. Ele caminha pela parte mais baixa da calçada e ouve animado as bandas que não conheço em seu fone de ouvido. De vez em quando, fala ao telefone com alguém que não lhe apresentei, e eu o vejo rindo, como ria em meu colo ao raspar minha barba em sua barriguinha gorda, como ria ao me derrotar no xadrez, como ria ao ouvir minhas péssimas piadas.

Como ria, e não ri mais.

Não comigo.

Chega ao trabalho e é bem recebido por porteiros e ascensoristas. Quando encontra algum colega - suponho, já que não os apresenta mais a mim - sempre recebe uma boa meia dúzia de tapinhas nas costas.

Parece feliz.

E toda vez que o vejo vestido como homem a caminhar na parte baixa da calçada, penso que está irremediavelmente condenado a ser muito melhor do que eu.

Imagem: Paula Sancier
Texto: Saulo Aride
Rodada 43


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