domingo, 2 de junho de 2013

peixes de outono




as folhas já não caem, o outono
está vivo como os peixes.

a luz se dispersa recortada

nas arestas das palmeiras, fragmentos cintilam
como poeira no ar, às vezes
sente-se a falta de um espelho

sem mentira:
não a placa clara,
metálica, estática, calada,

o perfil luminosamente alheio,
na imagem estéril,
sem um grito de retorno.

secos os dias, as horas enlanguescem:
o céu é totalmente nítido
na variação dos seus cinzas.

numa superfície d’água fria
os reflexos estão mortos
como as folhas de outro outono.

apenas sob o espelho há vida.  


Imagem: Magda Rebello
Texto: Guilherme Preger

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