domingo, 28 de julho de 2013

A música da bailarina



Desde a minha infância, uma música toca dentro de mim. Eu sempre segui seu ritmo como se dançasse pelos becos e vielas do morro onde eu morava. Muitas vezes eram batidas fortes que faziam meus pés se fincarem ao chão como se tivessem raízes, outras vezes era plácida, parecia um lamento e eu sentia até uma dor como se algo ou alguém tivesse morrido. Me acostumei a esses sons dissonantes.
Naquele tempo vivíamos com uma camada fina de barro pelo corpo correndo e nos escondendo até que fôssemos descobertos ou descobríssemos alguém. No começo, brincávamos pelo prazer da brincadeira mas logo alguns foram revelando-se audaciosos na arte de encontrar ou de se esconder.
Ensaiando as grandes decisões futuras, traçavam rotas que desafiavam as estratégias do adversário e num corporativismo nada inocente, passamos a não aceitar que qualquer um se candidatasse ao cargo do capturador, pois sabíamos que nosso candidato deveria ser um estrategista senão, a brincadeira acabaria rápido e teríamos que elaborar novos planos sem nem sentir o gosto barrento da perseguição.
No final da tarde, sempre nos encontrávamos na praça e dali partíamos para uma jornada onde decerto terminaríamos em capturados e fugitivos. Eu tinha consciência da tenacidade do meu lugar no jogo e como nunca era encontrada, passei à busca rapidamente, alternando apenas com o Caramelo que era sempre o último que chegava após suas incursões pela cidade vendendo seus pacotes de balas. Na verdade, a animação mesmo só começava depois que ele chegava pois, com seu jeito atrevido e um olhar eloquente, já havia consolidado certa liderança no grupo.
Entre as meninas, Caramelo também começava a ganhar prestígio porém, nos identificamos- os gatos, contra todos os ratos e antes de partirmos para as buscas, passamos a nos encontrar num barraco abandonado da rua C, esquina com uma rua sem nome. Contávamos até dez, todos corriam para se esconder. Nós subíamos a viela do fio rígido e corríamos para o barraco. No início, eram beijos rápidos que faziam parte do jogo de enganar os outros e saíamos logo para as buscas. Mas éramos pessoas dadas a desafios e começamos a marcar outros encontros onde ultrapassávamos etapas com desenvoltura, o que gerava um misto de orgulho e fragilidade. Eu sabia que existia um mistério em meu corpo que ainda era preciso desvendar porém, criar e manter um segredo me tornava superior no grupo.

Foi quando apareceu lá em casa uma tia que morava em apartamento e me convidou para passar as férias com ela. Me lembrei que nesse período novos ratos também apareciam no morro e conseguíamos capturá-los com facilidade mas eu não me contentava com as facilidades e já duvidava das minhas certezas. Aceitei o convite daquela tia que falava baixo, de forma pausada, tinha um sorriso tímido, era toda estranha. Levei uma mochila, a música que sempre tocava dentro de mim e fui embora com a minha camada fina de barro. Eu sabia que não iria mais voltar.
Conheci tapetes felpudos e também os gélidos mármores. Alguns assoalhos faziam o meu barro parecer sujo e inconveniente. Porém, aquela tia que entendia diversos ritmos, me servia uma sopa à noite e contava histórias da sua infância numa terra sem água. Nesses momentos eu me sentia abraçada e ela sabia disso.Também me contou sobre o dia em que deixou de ser moça- era assim que ela falava- o dia em que deixei de ser moça. Também contei o meu dia para ela mas com as minhas palavras. Ela não conseguiu esconder um certo espanto seguido de um riso condescendente.
Eu comecei a estudar numa escola nobre do bairro, fazia aulas de Inglês, Espanhol e dança contemporânea. À noite, conversávamos e assistíamos filmes, dos quais ela fazia longos comentários. Nos finais de semana, frequentávamos cinemas, teatros, centros culturais e restaurantes. Também apreciávamos ficar em casa. Ela lia em voz alta textos teatrais, eu encenava seus personagens. Depois ela preparava um espaguete. Sempre variava no molho.
Quando eu ia ao morro visitar a minha mãe, sentia um aperto no peito, uma vontade de chorar. Não sei dizer por que mas era como se eu tivesse sido lavada pela chuva que embora anunciada, surpreendia. Um dia encontrei o Caramelo com uma daquelas meninas que eram presas fáceis. Nem lembro o nome dela dada a insignificância que me causava. Acho que ao ir embora não lhe deixei escolhas mas eu não queria a liderança a que estávamos destinados. Ele seguiu seus passos e eu, a minha música.


Imagem: Pilar Domingo
Texto: Glaucia Fortes
Rodada 44


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