segunda-feira, 22 de julho de 2013

A VOLTA


A VOLTA


Lá vem ele se arrastando pelo caminho de pedras. Quer voltar, mas não sabe se deve, não sabe se pode, não sabe bem para onde.
Deixa-se levar pelas marés e vai sofrendo assim, avançando e recuando, sem nunca dar à praia. Talvez tenha o destino das garrafas de náufragos que nunca terão sua mensagem desvendada por olhos tão ansiosos quanto os de quem escreveu a derradeira carta. Talvez não consiga furar o espelho e seguir em frente, em busca de ar e vida nova.
 Ele se arrasta porque não tem mais a certeza que um dia já teve. Não tem mais a clareza da visão iluminada pelas estrelas das galáxias mais longínquas, todas convergindo para  clarificar o caminho escolhido. Só quando se sabe onde se quer chegar é que os astros conspiram a favor. Agora, está perdido.
Será que não deveria ter feito aquela curva? Uma curva que o levou a lugar nenhum, apenas para mais e mais longe de si mesmo.
Na euforia de ir em frente e com a certeza duvidosa de ser o dono do tempo, não atentou para as várias placas indicativas que estavam no meio do caminho. Talvez tenha mesmo dado importância a alguma indicação errada do destino e agora já seria tarde demais?
Ao andar nas nuvens, sequer percebeu que elas se adensavam e fez uma leitura equivocada das condições meteorológicas.
Agora, resume-se a isso e um vento qualquer poderá levar as migalhas de pão espalhadas no caminho para abrir a possibilidade de um possível retorno.
Uma revolta toma conta de si. Quer voltar, mas para o que foi há muito tempo; para o que já deixou de ser. Ele mesmo já deixou de estar e vaga sob sombras e sobre as pedras adquirindo novas feridas e impregnando-as de fungos e bactérias que se multiplicam nos lugares úmidos e escuros, como agora é sua vida.
Rasteja e se entoca com seu desespero. Bicho enjaulado que já foi borboleta um dia. Metamorfoses são recriações e, quem sabe, na primavera, algo venha a acontecer?
A mulher de modos coloridos e doces, de formas anatomicamente perfeitas e de alma boa ainda estaria na janela a olhar o caminho por onde, um dia, ele regressaria? Aquela alegria de viver ainda estaria disposta a se alojar em seu interior? A força para lutar pelo que acredita e, mais, a crença em algo que ainda valha a pena, ainda estariam disponíveis para serem usufruídas por ele? Ou a vida é mesmo uma condenação e nada mais importa?
Seus olhos, num passado remoto, tão festivos, seguem baixos, procurando os piores caminhos, como quem precisa ferir-se mais e mais e mais para saber-se ainda vivo. Suas mãos, criadoras de tantos carinhos, penetra as fendas e as brechas do deserto inóspito em que parece ter se transformado sua existência. Sua boca, que já abrigou beijos e sorrisos, está seca e rachada, como o solo por onde se arrasta.
Contudo, lá no meio do peito, como um oásis a gritar no deserto,  está aquele velho coração, que ainda se faz presente. Esse coração talvez seja o atestado de que ele ainda existe e de que, portanto, tudo ainda é possível. Inclusive a volta.



Texto: Maria Emilia Algebaile
Imagem: Magda Rebello
Rodada 45 - Invertida

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