terça-feira, 13 de agosto de 2013

AS BOTINAS DE VAN GOGH


Ao ver, num museu em Amsterdan,  o quadro com as botinas pintado por Van Gogh, imediatamente fui transportada a uma outra obra de arte, uma fotografia produzida por uma brasileira, uma fotografia tirada numa cidade interiorana do Rio de Janeiro, na roça. Uma fotografia de um par de botinas. Detive-me naquele quadro, cuja imagem detinha-se em meus olhos. Pensei em seus autores tão distantes no espaço e no tempo. Artistas sem nenhum contato. O que, no olhar de um, esteve presente no olhar da outra? Mais de um século separavam aquelas obras e, no entanto, como num espelho, a relação existente entre elas era tão real, tão contemporânea, tão absolutamente sensível.
Como um sonho recorrente que faz a gente acordar com a mesma sensação todas as madrugadas, aquelas imagens percorrem minha mente até hoje e eu bem conheço a impossibilidade de encontrar um outro caminho que as mantenha em contato que não seja a arte.
A arte realmente promove aproximações impensáveis à luz da lógica. O pintor e suas motivações. A fotógrafa e seus ímpetos. Ele buscava retratar a rudeza do meio rural. Ou seria apenas um espanto? Ela via beleza, era uma foto sentimental. Ou seria apenas um assombro? Num sobressalto percebo que aquelas imagens, praticamente idênticas, afinal encontravam diferentes ecos em meus olhos de admirar.
As botas de Van Gogh serão sempre um mistério que a arte replicou, mas não ousou desvendar.


Foto: Magali Rios
Texto: Maria Emilia Algebaile

Post extra para o CLP

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