quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Casulo

Tornou a observar as mãos brancas de Clara, descansadas sobre o lençol de seda vermelha. Com cuidado, ele ajeitou o braço esquerdo dela, aproximando-o do pescoço, simulando um gesto de recolhimento – seu ensimesmamento forçado, que parecia durar para sempre. Desembaraçou os cabelos castanhos escuros, penteando-os com seus dedos, por sobre o ombro direito dela, deixando à mostra a tatuagem de um coelho branco. Estava frio, mas ele não conseguia pensar nisso. Não tinha sensações térmicas, não sentia nem
angústia, tampouco desamparo. Não sentia sua falta, tudo ainda estava no lugar. Nada parecia acontecer no mundo durante aqueles minutos em que compartilhava o quarto avermelhado com ela. Tinha apenas uma única sensação.
Sentia que estava ferido. Agora tanto quanto Clara.
Com isso, deu-lhe um beijo na boca, cobriu com o lençol de seda vermelha seu corpo ainda quente, fechou os olhos castanhos dela, pegou a faca suja de sangue e foi embora.

Estava de luto.

Texto: Danielle Schlossarek
Imagem: Pilar Domingo

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