quinta-feira, 8 de agosto de 2013




Um dia ao acordar tendo sonhado estórias em preto&branco da adolescência viu que nenhuma foto sua era alegre o bastante para soltar-se no carnaval. Pelo contrário, todas eram muito nítidas: carregavam o realismo de uma estória visceral; trafegadas em estradas de sexo, música e drogas. Pareciam foto-jornalismo de uma época biográfica que um amigo montou para seu arquivo pessoal de experiências transgressoras e que agora prestes a terminar a escola de Belas-Artes, um professor disse a cada aluno que tirasse de suas fotos pessoais uma que pudesse ter contornos selvagens: que os traços da foto fossem gritantes e sem representatividade com uma época biográfica. Detalhe não podia ser PB, a cor deveria entrar em combinações possíveis dentro de um corpo que era o receptáculo delas e que ali se estudaria o veículo - como transbordamento de afecção. K não tinha esta foto, sua aspereza sempre foi muito perto de uma estrada a noite apenas iluminada pelo farol da sua consciência. Teve todos os garotos que quis com 15 ou 16 anos, a intimidação era para ele uma forma crua de ver o seu horizonte de prazeres embrutecidos. As fotos comprometedoras quando um cara as tirava ele pedia PB, tinha em posse de que a cor falsificava um elemento que para ele deveria ser mais próximo do realismo cruel. Não era a toa que gostava de tirar fotos de sanatórios aonde ia fazer ensaios com pacientes que estavam ali com demências ultrajantes.
Uma foto sua, antiga e colorida? Pensou em forjar uma foto, ou cria-la no estúdio de uma amiga artista plástica. A idéia romântica de ser um modelo e ter posado para que sua amiga o encharcasse de cores matizadas em tons degrades; aquilo o deixava com náuseas. Ligou para Camila que já tinha uma foto-pintura onde ela pela brincadeira por ter uma língua peçonhenta havia pedido para um pintor pintá-la de cobra coral. Embora a maioria não soubesse as diferenças das cobras corais venenosa para as não, até que alguém tivesse soltado um: Olhe o rabo afina de repente é por que é. Camila soltou uma gargalhada e pediu para olharem para o traseiro dela. Até que encontrou Ana que lhe disse por que não morto? Por que não se pinta de morto, o fato de você não ter tirado uma foto colorida estará para sempre falseada. Eu conheço um amigo que tem um realismo impressionante para pintar cadáveres para o cinema. È pintura e maquiagem; ele adiciona um pouco de tinta à maquiagem, uma que ele trouxe da Romênia quando foi filmar “Drácula: Nova abertura econômica no Comunismo”. Pense você quer a foto para terminar esta matéria, tua vida precisa de um corzinha, mas sempre preferiu o bom PB: o cinza vai ser sua fonte de eterna juventude. Como Drácula.


Imagem: Fernanda Franco

Texto: Fernando Andrade

Rodada 44

6 comentários:

  1. ótima estreia do Fernando com um texto intrigante. adorei os trechos sublinhados. mas também pudera: acompanhado pelo talento incrivelmente sensorial, selvagem e colorido da Fernanda. uma ótima obra de parceria...

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    1. Valeu Guilherme!! obrigado pelos comentários!! é tão bom partilhar um texto com trabalhos sensíveis como da Fernanda Franco.Gosto muito de criar junto a outros modelos de artes, o texto ou a pintura ficam simbiótica.

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  2. Primeira vez que entro neste blog, e que bela estréia não só a minha como do Fernando, poeta que já conhecia e admirava, e que agora me assusta com o seu talento de prosador intenso e visceral, falando diretamente do país da delicadeza. Pintura linda, que arranca alegria ao viver

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  3. Anterior assinado como Daniela (nao sei mexer nisso direito).

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  4. A leitura do texto no fb não me deixou ver os termos sublinhados, como vejo aqui no blog. Gostei muito da estreia do Fernando e da imagem da Fernanda. Visceral e intrigante, palavras de comentários anteriores, são realmente os adjetivos que melhor descrevem o texto. Vivacidade é o que encontro na imagem. Postagem ótima da dupla!

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