terça-feira, 24 de setembro de 2013

O AMIGO



Ele chegou pisando leve de tanta ansiedade que trazia nas várias camadas de pele, uma pele endurecida pelos trajes que havia se habituado a usar, mas que se eriçava ao toque quente das cores daquela cidade. Uma mochila mantinha guardados todos os pertences de uma vida inteira. O restante das coisas importantes estavam dentro do coração.
Pensamentos infinitos, sentimentos híbridos e sensações desconhecidas arrefeciam a estranha mania que tinha de manter os pés na realidade. Descobrira, há tempos, que a vida só acontece dentro do peito, da mente e do corpo. O resto é apenas exterior, é paisagem que emoldura o viver. Mas ainda não sabia lidar com essas constatações.
Sucumbira a tudo na sua existência sem importância. Não fora adestrado a sentir o viver de forma intensa, profunda, sincera, transparente. Mantinha-se num casulo e não conseguia vislumbrar o dia em que criaria asas para se entregar à vida. Foi por isso que decidiu pela mudança de cidade.
Tudo era novo naquele espaço. O céu só podia ser visto quando se olhava para o alto, o que lhe causava certo desconforto nas vértebras acostumadas à retidão e no olhar, viciado em só perceber o que vai à frente. Em sua terra natal, era diferente: o céu costumava se esparramar pelo horizonte. As árvores tinham sido substituídas por enormes prédios recobertos por um perigoso espelho que apontava a todos uma visão distorcida das possibilidades construídas. E começava a perceber o mais triste: todos se miravam e achavam normal a imagem desvirtuada.
Sentado na escadinha da igreja, mirava a cidade desconhecida que se despia a cada piscar de olhos. Deu-se conta da existência quando um homem sentou-se a seu lado e puxou conversa buscando cumplicidade. Talvez não fosse bem cumplicidade, mas um aconchego de alma, uma coisa a que ele não estava acostumado a compartilhar. O medo de tanta novidade se desmanchava na troca de palavras com aquele primeiro amigo que fazia naquele novo espaço.
Um amigo. Era tudo o que precisava para se situar. Era tudo o que queria para experimentar e dividir a vida de forma franca. Era tudo a quem, enfim, poderia entregar suas mãos e seus pés para que a vida não fosse tão difícil de carregar.
E o novo amigo contou-lhe sobre os odores, as sonoridades e os amores tristes. Falou-lhe dos dias de sol e dos perigos de cada esquina. Os dois riram e choraram e ele começava a se sentir à vontade. Quando já estava quase conseguindo contar ao amigo sobre seus descaminhos e sustos; sobre seus planos e tentativas frustradas; suas expectativas e desenganos; desejos e interdições, foi justo nesse instante que o outro se despediu e foi-se embora. A gente se vê por aí, foram as últimas palavras que ouviu.
E ele, sentindo friagem na alma, apesar das várias camadas de pele acostumadas à solidão, ficou lá sentado na escadinha da igreja com o fa(r)do aumentado por mais essa decepção para digerir.


Imagem: Magali Rios
Texto: Maria Emilia Algebaile
Rodada 46

2 comentários:

  1. adorei o post, "waiting on a friend". Magali conseguiu tornar interessante um monumento à feiúra na cidade, ao reticulá-lo entre espéculos

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