segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O que vem das ruas


O que vem das ruas
não tem preço:
um clamor estrondoso
em meio ao gás lacrimogênio.

Não tem preço o sobressalto
pelo efeito da bomba moral,
se já não se sente o choque
do estranho no habitual.

Não tem preço a ardência
feroz do gás de pimenta
pois o ardor que corre nos laços
entre braços é o que mais esquenta.

Não tem preço a dança desgovernada
dos projéteis  de borracha
entre as mentes que divergem
no voo livre  fora da caixa.

Não tem preço o cartaz rasgado
quando as palavras se vaporizam
e pairam como partículas
para outros sopros, poema-brisa.

Não tem preço a dubiedade
infamante do P2,
pois a luta é o que conta agora
e não fica para depois.

(Têm preço a extorsão da polícia,
o jato d’água, o pânico,
 o tiro-ao-alto, o canhão sônico,
o soco no esôfago do vândalo,

a mentira da Grande Mídia,
o deboche condescendente
da velha guarda em busca
de líderes, programas e frentes,

o fascismo moralista,
o político oportunista,
o juiz legalista,
o golpismo revisionista).

Não tem preço
o que está nas ruas,
é a vez de uma voz que ninguém compra

pois não há quem não a possua.

Texto: Guilherme Preger
Imagem: Fernanda Lefèvre

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