terça-feira, 17 de setembro de 2013

Trânsito

E você está mais uma vez no banco do carro, sem conseguir se deslocar com ele. Se alguém tocar em seu vidro e perguntar como você veio parar ali, provavelmente você dará uma resposta construída, uma reconstituição inexata de seu princípio de manhã, um engenho de memória que faz um pout-pourri de estilhaços de momento (escovou os dentes? Bebeu suco? Ou café?) e se livrará rapidamente da questão. Mas no fundo você não consegue dizer quando começou seu dia, o trabalho para o qual você dirige diariamente, a vontade de trabalhar naquilo... Tudo o que você consegue é se enxergar sempre no meio das coisas.

A rádio toca as mesmas músicas toda manhã e isso serve para dar um certo conforto a quem acorda cedo como você, um fiapo de padrão que se soma ao cotidiano do engarrafamento, à luta com o termostato do ar condicionado, à eterna sensação de que se esqueceu de algo. Todas essas fagulhas de familiaridade permitem que você chame o conjunto de momentos de "sua vida", embora seja muito difícil fazer uma lista de cinco coisas que sejam que sejam realmente suas nela.

Outro dia você leu num jornal uma matéria com pessoas que se vangloriam de não ter quase nada, apenas o essencial - segundo seus próprios critérios. Você se lembra - ou acha que se lembra - de ter gargalhado ao ler a matéria, de ter pensado que aquilo não merecia a capa do jornal. "Ninguém tem quase nada", é o que você pensa ao engatar novamente a marcha do carro para andar alguns centímetros. Qual a graça que as pessoas veem em se vangloriar de não ter nada? Você se ressente de não ter coisas, não porque queira consumir mais coisas, mas porque as coisas que você consome nunca são exatamente suas. O que é seu nas músicas dos outros, nos pacotes de televisão, nas roupas feitas às toneladas por operários chineses, nos computadorezinhos de aço escovado? Indo mais longe: o que é seu na sua história, no relógio de bolso do seu avô, nos tricôs que muitas senhoras queridas fizeram para proteger seu corpo do frio ao longo do tempo?

O que é seu?

Por isso você se apega a suas garrafinhas de plástico, nunca jogando fora após beber seu conteúdo original. Você sente que ao encher novamente a garrafinha ela finalmente se torna sua, tem seu cheiro, seu hálito, sua marca, no plástico transparente, dos rasgos microscópicos de seus lábios ressecados. Você as utiliza até o ponto de perdê-las, e a cada garrafa perdida você cai em si e percebe que não, ela nunca foi sua.

Não plenamente.

Fora as garrafas, nada mais parece seu. Outro dia, ao abastecer o carro, o frentista perguntou se você queria doar a quantia de cinco reais para eliminar a pegada ecológica do uso de gasolina. Não, você não queria. Durante tanto tempo você se questionou quanto ao que se esperava de você, quando a resposta sempre foi tão óbvia quanto o pedido do frentista. Tudo o que esperam é que você passe pelo mundo sem deixar qualquer marca, qualquer pegada. Entre no planeta e deixe exatamente como está. Não se deve modificá-lo nem acabar com ele, porque, afinal, o mundo tal como é ainda deve valer a pena para alguém.

Bem-aventurado aquele que parece nunca ter existido.
Em sua lápide, você pensou, podem escrever: "Viveu sem deixar pegadas".

Seu carro - eleito a compra do ano por uma revista especializada - é um carro desenhado num país, montado em outro e vendido num terceiro. Nada nele é seu. O vendedor conseguiu conquistar sua decisão quando falou que ele era um veículo personalizável, mas os vendedores usam esse termo para a faculdade de aplicar adesivos ou optar por acessórios. "Isso não é personalizar", você argumentou, mas o vendedor retrucou: "É o mais perto disso que você consegue chegar".

Ele estava certo.

Você comprou o carro e cuidou de não fazer muitas dívidas para não deixar pegadas.

Ontem você deixou seu carro para lavar enquanto trabalhava. Você mesmo não lava seu carro nunca. Ele não é seu, embora personalizável, e jogar água nele é como dar banho em outro corpo. Por sorte, o rapaz que fica perto de seu trabalho não parece se incomodar em dar banho em outros corpos mediante o pagamento de 50 reais por mês, o que parece módico, mas sai do seu dinheiro, que também não é seu.

Ontem, ao buscar seu carro, você agradeceu mais uma vez pelo serviço prestado pelo rapaz. Simpático, ele respondeu:

"Estamos aí".

Ele e você.

Aí.

De uma coisa você acaba de se lembrar enquanto aguarda o sinal ficar verde: de algo que seu pai disse quando vocês observavam juntos o movimento da rua em que ele foi criado. Sentado diante do marasmo das ruas do interior por horas a fio, seu pai o chamou para perto dele. Você perguntou a graça de ver aquela gente indo e voltando. Ele disse que, a cada pessoa que passava, ele se fazia a pergunta:

"Que vida leva?"

E hoje você acordou, escovou os dentes, bebeu suco (ou café?) e entrou novamente no seu carro para se ver no meio de alguma coisa aí.



Texto: Saulo Aride
Fotografia: Marcos Sêmola
Rodada 45 - invertida.

7 comentários:

  1. Lindo conto!!Saulo!! Tirou da foto do Marcos super expressiva e bonita, um texto cheio de alusões e reflexões lindíssimas.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. "Um fiapo de padrão que se soma ao cotidiano do engarrafamento". Essa é uma pequena amostra do belo e filosófico conto do Saulo, que se completa com a excelente fotografia. A dupla merece aplausos!!!

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  4. grande trabalho da dupla. um clique do semola "estreito", enviesado, e o saulo, "no meio de alguma coisa aí", envolto com as questões da paternidade. parabéns!

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  5. grande trabalho da dupla. um clique do semola "estreito", enviesado, e o saulo, "no meio de alguma coisa aí", envolto com as questões da paternidade. parabéns!

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  6. Obrigado pelos comentários! É um texto bem diferente dos que costumo fazer, ando experimentando esse tom excessivamente pessoal, autorreferente... Tem sido terapêutico, mas achei que ninguém mais fosse se identificar! rs Fiquei feliz com os comentários! E a foto do Sêmola é bem isso: uma entrada ligeira de luz num momento sem antes ou depois... Muito boa mesmo.

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