segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Anti-duração




Existe um minuto congelado dentro de cada minuto normal. Existe também um coágulo de segundo dentro de cada segundo padrão. É aquele pedaço de tempo dentro do tempo em que tudo para, é um cantinho de vida que passa ao largo de tudo o mais que está acontecendo. É o coágulo de tempo dentro do tempo, e entrei nesse coágulo de tempo quando estava no táxi, a caminho daquela festa, imersa em certa euforia e expectativa que precede as grandes noites. Foi quando parei de sentir, de pensar e de ouvir. Os pseudópodos da vida (e a vida certamente os tem) deixaram de agarrar minhas entranhas, e minhas vísceras já não pulsavam mais como antes. Era uma percepção que não seguia as regras da lógica e não usava as categorias de antes, agora e depois. Meu organismo deixou de causar fricções na minha pele. Só agora em que estou fora do coágulo de tempo dentro do tempo posso lembrar desse momento condensado em que as palavras não alcançam o conceito. Essa percepção total e instantânea aconteceu quando a freada do taxista não foi capaz de deter ou inverter as leis da física. O acidente aconteceu e o sentido escapou do meu campo de visão. Foi aquele o momento em que entrei no coágulo de duração que deixa de ser duração.
Hoje estou recuperada. Quebrei um braço, uma perna, perdi sangue em arranhões. Claro que não cheguei ao meu destino e os parentes foram avisados. Estive no hospital, as dores preencheram os espaços vazios do meu corpo, esses mesmos espaços que me erguem como gente. Verguei ao peso das dores. E o susto veio no momento em que percebi que tudo ia acontecer ou deixar de acontecer. Era como se o tempo e a consciência se reproduzissem por mitose e houvesse outros pedaços do meu eu observando tudo sem envelhecer. O tal do coágulo de tempo parado que observa o tempo que avança. As palavras não se acercam do conceito, perco-me ao tentar explicar. O taxista morreu e o carro da frente deixou de ser carro. E, rememorando, agora já imersa no tempo que escorre e que permite lembranças, às margens da anti-duração, me lembro, asfixiada, dessa sensação de que o tempo pode parar e em que eu deixei de ser eu.
Imagem: Marcos Sêmola
Texto: Vivian Pizzinga
 





 

 

2 comentários:

  1. Ótima parceria do Marcos com a Vivian! O texto está brilhante, não externa, pelo contrário, vai sutilmente nos permitindo ver as consequências da ação com perfeitas dobras de ocultações da ação sentida.

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