terça-feira, 1 de outubro de 2013

O Homem da Poltrona


O homem sentado na poltrona me olhava o tempo inteiro. Tinha feições duras e olhar inquisidor. Não sei exatamente de onde ele veio e nem por que escolheu a minha casa, a minha cadeira mas ali permanecia há anos perscrutando meus passos . Eu passava para cá, para lá e ele sentado, imóvel, me observando. Não me lembro desde quando vivia ali ou quando passei a notá-lo.
Às vezes, eu me distraía com alguma coisa mas ao passar pela sala, encontrava-o ali na cadeira me encarando. Eu tratava logo de consertar a postura, colocar seriedade na cara e andar discreto porque seu olhar me impunha regras.
Mesmo quando eu saía, sabia que ele estava lá e voltava logo a fim de não decepcioná-lo. Outras tentava ignorá-lo mas desenvolvi uma técnica estranha de ouvir a sua voz: “volte cedo pra casa! Amanhã tem trabalho!”
Quando eu ia ao mercado ouvia-o “não leve isso, é caro! Não leve isso, é muito gorduroso!”
De vez em quando, ficava pensando como deveria ter sido a infância dele, se era daqueles meninos briguentos que viviam emburrados, ou daqueles quietinhos escondidos dentro de si mesmos e que de tanto ser invisível, acabou se fechando num mundo cinza. Pensava o quanto ele se cobrara na mocidade e o quanto não conseguira bater suas próprias metas, traduzindo suas perdas numa carranca assombrosa. Sim, era um fantasma!
Um dia, esqueci sua persistente presença na minha sala. Fui a uma festa, bebi umas cervejas, cheguei em casa alegre, cantando, acendi a luz e quando me virei, vi o homem sentado na minha poltrona, levei um susto, gritei. Então, o confrontei. Ele continuou sisudo, me encarando. Eu permaneci impassível. Algo nele me incomodava.
Foi nesse dia que resolvi falar: “olha, vou ser cortês contigo. Você pode continuar aqui em casa, ficar imóvel aí na poltrona, pode até tomar meu Red Label porém, a partir de agora, você será como um vaso no canto da sala, entendeu?”
Passei a andar despreocupado pela casa, deixava copos sobre a mesa, ouvia música e até dançava. A presença daquele homem não me incomodava mais. Sabia que ele estava lá, mas eu tinha a casa toda para mim e usufruía-a com liberdade.
Em setembro, comecei a receber uma amiga em casa. Então, disse a ele “olha, você vai ter que se mudar para o quartinho dos fundos. Mas não fique aborrecido! Se quiser, pode levar a poltrona.”
Passaram dias e eu não vi mais o homem. Fui até o quartinho e nada. Ele não estava lá. Passaram meses. Cheguei a ficar preocupado com ele- um homem que passara tanto tempo trancado dentro de casa imóvel numa cadeira- não saberia andar por aí assim. Mas logo descobri que ele não estava muito longe. Um dia encontrei-o no elevador. Ele me olhou, cumprimentei-o com a cabeça e esbocei um sorriso. Ele ergueu a sobrancelha e levantou o chapéu. Apertou o número três do painel. Quando a porta abriu ele disse “Bom dia” e saiu.

Imagem: Carlos Monteiro
Texto: Glaucia Fortes


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