quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Um lugar por si só




O tempo é uma passagem de horas, meses e anos, mas Kall quando ia para praça não tinha muito o quê fazer. A praça para ele não é uma passagem, por que ela não está no meio do caminho dele. Via muitas pessoas passando pela praça para ir ao supermercado, ou porque moravam atrás da pracinha. Aquela sensação de trânsito que o lugar que ele gostava de permanecer sentado, horas, e que para um mundaréu de gente era apenas um percurso a atravessar lhe deixava louco de raiva! Pensou que a praça tinha sua significação semântica muito maleável e que se ele levantasse do banco e fizesse algumas perguntas por aí; as respostas seriam as mais variadas. Pensou em criar um conto: a praça seria dentro da cidade um espaço irrealizável, mas ao contrário do que as mães desejassem: não seria espaço para brincadeiras. Fora as brincadeiras!

Ele trazia sempre para lá seu Sancho Pança que era um cão - um Bull Terrier gordo e descrente da civilização dos arredores. E quando pensava nestas filosofias de coisa alguma a fazer, ele conversava com o cão no seu colo e dizia que praça é para se nada ficar. Ia mais além: que o espírito ideal não era para reflexão; ela não abraça nenhuma ideia, pois a praça embora cercada de grades; era ideal por ela mesma, quase como uma alma sem corpo e por isso sem pensamentos e nem muito menos ações, portanto, ele achava que a praça não era lugar para ficar passeando e nem muito menos... – ficando.
Nesta hora Sancho olhou para ele e disse. Seu discurso está cercado de rachaduras. Como assim, rachaduras? Direções alquebradas por certo espírito egoísta seu. Ele tinha visto na TV um programa que era uma anarquia só, mas que no seu nome trazia uma coletividade que Kall no seu egocentrismo havia esquecido. “A Praça é nossa”. Kall berrou - é nossa inapropriadamente! Nem minha é! Ninguém pode ficar em um lugar onde os elementos são transitórios! Aquele brinquedo ali, ele serve para quê? Para se subir disse Sancho. É um objeto efêmero que não vai durar mais que 10 segundos na mente de alguém. Um entreposto de sonho; uma algazarra sem conteúdo! Sancho olhou para os brinquedos e resolveu não contrariar, devia ser algo a ser resolvido na próxima sessão de psicanálise.


Imagem: Rudy Trindade
Texto: Fernando Andrade
Rodada 46


7 comentários:

  1. o conto captou muito bem a expressão do homem da fotografia. A fotografia em si já é bela, o contraste preto e branco, a riqueza dessa expressão de nada, e o cão também expressivo, pesando na foto com sua linguagem extraterrestre. O conto captou bem esse espírito, além dos nomes que se encaixaram como uma luva, e o final com a filosofia complexa do cão ficou cômico e trágico, dando o toque final. ass. DANIELA

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  2. Gostei do texto.
    Boa parceiro...
    abra;os

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    1. Fico muito contente Rudy, tua foto estava bem sugestiva para a escrita.abraços.

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  3. Bela "mistura". Encontro perfeito !!
    Parabéns.

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  4. Arte visual e arte da palavra se cruzando. Inspirador! Deu até vontade de ir à praça, sentar e observar a vida passando, imaginando histórias possíveis... ou impossíveis!
    Vera Pasqualin

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