quarta-feira, 27 de novembro de 2013

TRIATLETA

           
Adoro a solidão. E os esportes. São a minha segunda paixão. Optei pela corrida porque posso praticá-la sozinho. Maratona, já que a minha felicidade é diretamente proporcional ao tempo em que consigo ficar só sem parecer esquisito. Também gosto do silêncio, ele me fascina. Não tem nada mais parecido com o mar do que o silêncio. E eu amo o mar. É a minha terceira paixão. Por isso fui nadador. Fazia travessias. Ficava horas seguidas nadando, prestando atenção ao som do infinito, interrompido apenas pelo barulho que meus braços faziam quando saíam da água e a ela retornavam, me impulsionando pra frente. Não sou rápido, mas sou constante, foi o que o meu treinador me disse quando me conheceu. Ele dizia que pra mim parecia indiferente ganhar ou perder. Realmente, eu não pensava em vencer quando corria ou nadava. Pra melhorar a minha performance, ele propôs que eu fizesse ciclismo. Me daria mais força nas pernas e, quem sabe, a tal da vontade de vencer. Fiz o que ele propôs e durante um tempo pratiquei ciclismo. Me apaixonei pelo esporte e passava horas e horas pedalando em estradas desertas, disputando com os trens que se aproximavam a toda velocidade das estações das cidades por onde eu passava. O ciclismo acabou virando a minha quarta paixão. Meu treinador propôs que nos inscrevêssemos no triathlon. Topei. Vencemos a prova e outras tantas de que participamos. Uma manhã, eu estava na vila olímpica, concentrando-me para participar da nossa quinta prova, quando percebi que eu também me referia a mim na segunda pessoa do plural. Fiz as malas e, em silêncio e só, voltei pra casa. Continuei praticando sozinho os meus esportes preferidos até quando pude. Suponho que descobriria ter dado a volta ao mundo mais de uma vez caso fizesse as contas de quantos milhares de quilômetros já nadei, pedalei e corri.
Hoje estou com noventa anos. Já não consigo mais pedalar, nadar ou correr. Optei por escrever. Foi a forma que arrumei de permanecer só sem parecer esquisito.

Imagem: Marcos Sêmola
Texto: Ana Claudia Calomeni
Rodada 47


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