sábado, 7 de dezembro de 2013

Diatribe





Meu nome é Charlotte. E também Douglas. Muitíssimo prazer. Charlotte Douglas nos dias pares, nos dias ímpares tudo muda de figura. Sou, então, Alexander. E também Maria. Meus cumprimentos, Alexander Maria nos dias ímpares. Tenho atributos ambíguos e capacidades múltiplas, e conforme a hora do dia sou também Renata. Renata Alexander Douglas, depois das seis da tarde, quando o metrô é um apinhado humano de humores, odores e o que mais couber no vagão. Dizem que não sou flor, que não sou flor que se cheire, que sou cheiro sem flor. Não gostam de mim, as pessoas em geral, porque sou Lilian quando em viagem a negócios. E também Débora. Lilian Débora com uniforme de executiva, mas de férias sou Paulo. E também Jaime. Paulo Jaime se o hotel é cinco estrelas, se a orla me apetece, se o chopp estremece na tulipa. Não gostam de mim porque exalo (é o que dizem) certo odor de paranoias antigas e coletivas, não sou flor que se queira. A azia não me pertence, mas querem imputá-la a mim, porque sou Lilian Jaime Charlotte, quando fujo das conferências para conhecer a banda podre da cidade. Gosto das bandas podres, as minhas são inúmeras, e por isso certa azáfama de inveja se faz notar quando estou por perto, um bulício de comentários carregados de despeito, mas cago (verdadeiramente cago) para os olhares nervosos, ando para a peçonha que pinga. Temem a mágica que produzo, sou demoníaco e diabólico e tudo o que seja sinônimo dos quintos dos infernos (é o que dizem, é a minha reputação). Têm horror a mim e a tudo o que me diz respeito, porque sou Douglas Maria Renata, se me querem no comando, mas sou também Paulo Jaime Charlotte, se me querem submisso. Prazer, sou Lizandra. E também Bob. Lizandra Bob se me que querem feminina, perfume francês, olhar lânguido, e Bob Lizandra, se me querem particularmente cabra macho. Sou todas as coisas encapsuladas dentro de cada um e sigo em frente, empinando o que fica na parte de trás de mim. Não tenho medo de dizer que sou Aquiles, em dia de eliminatórias da Copa, e sou Joyce, em noites de despedida. O prazer é todo meu, Aquiles Joyce a seu dispor. Quando a preferência é chá e torradas, sou Demétrio, quando a escolha é café e cigarros, sou Tomás. Este é meu cartão, Demétrio Tomás, para quando o banquete não tiver hora para acabar. Odeiam-me por isso, querem ser Aquiles Joyce, e também Charlotte, repudiam minha facilidade em ser Alexander, invejam descaradamente a Lilian Débora que mora nos cantinhos revoltos do meu estômago, esse meu estômago que nunca me dá paz. Detestam-me porque sou ambidestro. E sou mesmo. Não posso fazer nada. Quero que se fodam, esses que me odeiam, quero que se fodam, todos juntos e de mãos dadas.

Imagem: Marcelo Damm
Texto: Vivian Pizzinga
Rodada 47


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